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20110214
os velhinhos abandonados
A recente descoberta por parte dos media dos velhinhos abandonados é comovente. Obviamente, o buzz mediático - despertado pela descoberta da idosa esquecida durante dez anos - irá desaparecer no momento em que aos casos descobertos nos últimos dias, que os media apresentam como confrangedores, se juntem outras dezenas e centenas de casos semelhantes. Porque a verdade é que devem existir milhares, e só por ignorância ou hipocrisia é que podemos dizer que não sabíamos. O problema é ocidental e urbano, e tem especial relevo em países como o nosso, devido a motivos particulares como as migrações contínuas para os grandes centros suburbanos, o preço absurdo das casas, e o facto de estas terem áreas pequenas. A verdade é que o abandono dos idosos e as crianças é o preço que todos temos de pagar pelo mundo que escolhemos. Fale - se um bocadinho mais com qualquer psicóloga de um colégio particular ou público, e esta confessará que a taxa de crianças sem acompanhamento paternal efectivo é assustadora. O mesmo acontece, claro, com os idosos. Já ninguém tem tempo para eles, quando se multiplicam as necessidades pessoais e profissionais. Aliás, se quisermos levar a questão um pouco mais a sério, o que está a acontecer é a dissolução total da família. E, se tudo correr como o previsto, a geração que daqui a 25 anos chegará a avô, ou seja a minha, ainda sofrerá mais este problema. Na verdade, não podemos estar a educar os nossos filhos para operarem no mundo global, o que é o mais correcto que temos a fazer, e esperar que estes nos levem ao hospital às três da manhã de uma quarta - feira. Deste modo, é de uma tremenda hipocrisia da parte dos media insistirem numa história de fazer chorar as pedras da calçada. É apenas o preço a pagar, e o único modo de evitar esta cobrança das circunstâncias é tentar criar, pessoalmente, e muito antes, mecanismos para que quando esta se manifeste, não o faça de modo muito violento.
20110110
A SITUAÇÃO INTOLERÁVEL
A conjuntura política e económica nacional é intolerável. Duas forças decisivas adoptaram estratégias insustentáveis e estão dispostas a ir até ao fim na defesa dos seus interesses. A primeira força é a dos funcionários públicos, e a sua estratégia é a de recusar participar na austeridade. A segunda força é a do Governo, e a sua estratégia é a de não querer reformar o Estado. Deste nó górdio, apenas pode resultar o caos.
A primeira força revela ter adoptado de modo delirante a fuga para a frente. As revelações, públicas o que ainda é mais fantástico, de corpos públicos de elite, como os juízes e os polícias, de que recusam acatar as medidas de austeridade, são inaceitáveis. A estes corpos de elite, sucederam -se os sindicatos, os directores de escolas e todos os outros, que através do litígio judicial querem impedir a aplicação da austeridade. Quanto a mim, é uma posição extraordinária. Na verdade, não há fuga possível. As contas públicas, o Estado, estão falidos, o que é reforçado por agentes económicos privados débeis, incapazes de inverter a nossa tendência económica depressiva. A única posição possível é a de aceitar o sofrimento e o sacrifício. Para a minha geração, a que tem agora 40 anos, não há outro caminho. Como sabemos desde 1990, esperam -nos pelo menos duas décadas de vida numa economia pobre, com tudo o que isso implica. Mas aceitar a realidade não deve ser uma validação para a adopção de estratégias absurdas. Cabe - nos aceitar o sacrifício com lucidez e dignidade, e tentar fazer o melhor para que os nosso filhos tenham acesso a um país melhor. A segunda força decisiva, o Governo, que tem o poder de decisão administrativo no Estado, mantém uma estratégia de enterrar a cabeça na areia, por calculismo e cobardia política. Na verdade, não é possível pedir sacrifícios, como o aumento dos impostos e a redução do salários, e manter os privilégios de uma gigantesca minoria e de um sistema, o estatal, obeso e ineficaz. O encerramento de estruturas desse sistema e o despedimento de funcionários são condições obrigatórias. Em simultâneo, é imperial a extinção imediata de privilégios supérfluos e irracionais perante a conjuntura em que vivemos. Refiro - me, só para dar alguns exemplos impressionistas, a despesas de representação, prémios e bónus, despesas secundárias, viagens e uso de viaturas oficiais excepto em deslocação oficial fora da área de trabalho do funcionário. A segunda força decisiva não fará nada disto porque, tal como todos os seus congéneres, o partido a que pertence depende do Estado para assegurar a sobrevivência e o trabalho dos quadros desse partido. E é este beco constitucional que mina por dentro o nosso país. Parece - me, pessoalmente, que a única saída é uma associação temporária da sociedade civil, unida num movimento que, respeitando a ordem constitucional, obrigue materialmente os partidos a adoptarem as estratégias que querem evitar a todo o custo. O voto em branco nas eleições legislativas e a recusa de pagar qualquer serviço estatal parecem - me ser medidas prioritárias. Os cidadãos têm de dizer claramente aos seus representantes: "Acabou, rapazes".
A primeira força revela ter adoptado de modo delirante a fuga para a frente. As revelações, públicas o que ainda é mais fantástico, de corpos públicos de elite, como os juízes e os polícias, de que recusam acatar as medidas de austeridade, são inaceitáveis. A estes corpos de elite, sucederam -se os sindicatos, os directores de escolas e todos os outros, que através do litígio judicial querem impedir a aplicação da austeridade. Quanto a mim, é uma posição extraordinária. Na verdade, não há fuga possível. As contas públicas, o Estado, estão falidos, o que é reforçado por agentes económicos privados débeis, incapazes de inverter a nossa tendência económica depressiva. A única posição possível é a de aceitar o sofrimento e o sacrifício. Para a minha geração, a que tem agora 40 anos, não há outro caminho. Como sabemos desde 1990, esperam -nos pelo menos duas décadas de vida numa economia pobre, com tudo o que isso implica. Mas aceitar a realidade não deve ser uma validação para a adopção de estratégias absurdas. Cabe - nos aceitar o sacrifício com lucidez e dignidade, e tentar fazer o melhor para que os nosso filhos tenham acesso a um país melhor. A segunda força decisiva, o Governo, que tem o poder de decisão administrativo no Estado, mantém uma estratégia de enterrar a cabeça na areia, por calculismo e cobardia política. Na verdade, não é possível pedir sacrifícios, como o aumento dos impostos e a redução do salários, e manter os privilégios de uma gigantesca minoria e de um sistema, o estatal, obeso e ineficaz. O encerramento de estruturas desse sistema e o despedimento de funcionários são condições obrigatórias. Em simultâneo, é imperial a extinção imediata de privilégios supérfluos e irracionais perante a conjuntura em que vivemos. Refiro - me, só para dar alguns exemplos impressionistas, a despesas de representação, prémios e bónus, despesas secundárias, viagens e uso de viaturas oficiais excepto em deslocação oficial fora da área de trabalho do funcionário. A segunda força decisiva não fará nada disto porque, tal como todos os seus congéneres, o partido a que pertence depende do Estado para assegurar a sobrevivência e o trabalho dos quadros desse partido. E é este beco constitucional que mina por dentro o nosso país. Parece - me, pessoalmente, que a única saída é uma associação temporária da sociedade civil, unida num movimento que, respeitando a ordem constitucional, obrigue materialmente os partidos a adoptarem as estratégias que querem evitar a todo o custo. O voto em branco nas eleições legislativas e a recusa de pagar qualquer serviço estatal parecem - me ser medidas prioritárias. Os cidadãos têm de dizer claramente aos seus representantes: "Acabou, rapazes".
20100522
alguns caminhos da memória
No mesmo momento em que Portugal parece estar cada vez mais uniformizado, ao nível das ideias e do imaginário, pedaços marcantes da memória e acção social colectiva das últimas décadas, coincidentes no tempo, parecem estar a percorrer caminhos distintos. Estes pedaços dizem todos respeito ao período 1940 - 1980, um tempo onde a história nacional portuguesa acelerou. Dois dos pedaços que gostava de tratar aqui são a presença portuguesa em África e a importância da esquerda radical nos contextos político e social. A África portuguesa foi, até há muito pouco tempo um imenso território histórico vazio no imaginário e conhecimento dos portugueses nascidos depois de 1980, com excepção da Guerra Colonial, claro. Na verdade, toda a complexa presença portuguesa em terras africanas, exercida ao longo dos séculos, parece ter desaparecido de repente, como se nunca tivesse existido uma ligação. Assim, nos últimos anos, têm acontecido duas coisas distintas. Por um lado, o afastamento entre a sociedade portuguesa maioritária e os países africanos, fazem com que realmente um fosso definitivo tenha sido construído. Não há hoje uma ligação construída todos os dias, por múltiplos laços afectivos e sociais. Mas é no terreno desta separação, que começam a surgir as provas das ligações profundas e antigas. Refiro - me às, finalmente, publicadas investigações históricas, como a de Cláudia Castelo, que, na senda do trabalho singular de Maria Emília Madeira Santos, trazem finalmente à partilha os dados possíveis para a decifração desse enigma polifacetado que é o dos portugueses africanos. Neste campo, o da experiência africana portuguesa, será preciso esperar ainda algumas décadas, para vislumbrar qual será o contributo dos filhos de africanos nascidos em Portugal, e o dos portugueses que agora chegam a África. Por outras palavras, será talvez nas próximas décadas que poderão ser mais claramente definidas a importância de África para os portugueses e, simultaneamente, a quantidade de memória que será partilhada.
Ao mesmo tempo, a esquerda radical, que teve em Portugal quando muito 15 anos de acção, é outro enigma do qual ainda não sabemos quanta memória será conhecida. A uma visibilidade enorme de alguns dos seus membros corresponde, inversamente, um quase desconhecimento das suas práticas e até, em alguns casos, ideias. À medida que alguns dos seus elementos mais importantes vão morrendo ou envelhecendo, não têm surgido documentos de conhecimento, excepto aqueles produzidos pela imprensa, ou algum investigador mais solitário, como é o caso do jovem Miguel Cardina. Sobre este tema, o enigma continua suspenso, e é também extremamente curioso acompanhar o que trarão as próximas décadas no campo do conhecimento, se um quase deserto, se novas zonas de claridade. Para o regresso da memória, isto é para um conhecimento livre e científico do passado que permita a entrega de uma memória livre de prévios juízos ideológicos e marcas de poder exercidos em sombra, são necessárias várias condições, que muito poucas vezes são reunidas por aqui. Antes do mais, um investimento financeiro e logístico sério no trabalho dos investigadores. Depois, a eliminação de uma particularidade muito portuguesa. De facto, para uma concentração unicamente científica nos temas que importa investigar para que a memória conhecida não seja antes editada, terá que antes existir uma eliminação das linhas mestras ideológicas e intelectuais que ainda hoje continuam a determinar, em cumplicidade silenciosa com inúmeros círculos de poder com património investido nesses temas, o trabalho de investigação, impondo temas, proibindo outros, jogando assim um papel decisivo no que se conhece e no que vai sendo deixado na bruma do tempo. Com estas condições reunidas, a memória deixará de ter temas sagrados e temas tabu, e aquilo que hoje somos será conhecido de forma muito mais profunda.
Ao mesmo tempo, a esquerda radical, que teve em Portugal quando muito 15 anos de acção, é outro enigma do qual ainda não sabemos quanta memória será conhecida. A uma visibilidade enorme de alguns dos seus membros corresponde, inversamente, um quase desconhecimento das suas práticas e até, em alguns casos, ideias. À medida que alguns dos seus elementos mais importantes vão morrendo ou envelhecendo, não têm surgido documentos de conhecimento, excepto aqueles produzidos pela imprensa, ou algum investigador mais solitário, como é o caso do jovem Miguel Cardina. Sobre este tema, o enigma continua suspenso, e é também extremamente curioso acompanhar o que trarão as próximas décadas no campo do conhecimento, se um quase deserto, se novas zonas de claridade. Para o regresso da memória, isto é para um conhecimento livre e científico do passado que permita a entrega de uma memória livre de prévios juízos ideológicos e marcas de poder exercidos em sombra, são necessárias várias condições, que muito poucas vezes são reunidas por aqui. Antes do mais, um investimento financeiro e logístico sério no trabalho dos investigadores. Depois, a eliminação de uma particularidade muito portuguesa. De facto, para uma concentração unicamente científica nos temas que importa investigar para que a memória conhecida não seja antes editada, terá que antes existir uma eliminação das linhas mestras ideológicas e intelectuais que ainda hoje continuam a determinar, em cumplicidade silenciosa com inúmeros círculos de poder com património investido nesses temas, o trabalho de investigação, impondo temas, proibindo outros, jogando assim um papel decisivo no que se conhece e no que vai sendo deixado na bruma do tempo. Com estas condições reunidas, a memória deixará de ter temas sagrados e temas tabu, e aquilo que hoje somos será conhecido de forma muito mais profunda.
20100207
tentação de controlo e tipologias de influência
A publicação editada de algumas interceptações telefónicas realizadas pela Polícia Judiciária, sem que se conheça ainda a totalidade destas e o seu conteúdo integral, sobre um hipotético e não provado plano de tomada de controlo, desenhado por um núcleo de poder relacionado com o Primeiro - ministro em funções, de alguns órgãos de comunicação social, é um bom motivo para partilhar duas ou três hipóteses de análise relacionadas com o exercício do poder e da influência no nosso país. A primeira hipótese de análise está relacionada, como não poderia deixar de ser, com o exercício efectivo do poder judicial e de investigação criminal e o confronto destes com a limitação de informação pública imposta pelo segredo de justiça. Se outros casos semelhantes do passado recente não fossem suficientes, o que analisamos neste momento prova sem margem para dúvida que o segredo de justiça clama por reforma imediata. De facto, em boa verdade, a divulgação de um conteúdo limitado das interceptações telefónicas provoca um número considerável de problemas de extrema gravidade, que só poderão ser eliminados com a publicação integral do conteúdo com relevância pública de todas as escutas relacionadas com a investigação realizada. O primeiro problema é a suspeita fundamentada de que alguma entidade, colectiva ou individual, das que formam o núcleo restrito com acesso ao conteúdo das escutas e dos despachos do MP tenha decidido pela sua passagem ao público depois das instâncias judiciais superiores não lhes terem conferido valor, radicalizando assim um confronto de poderes constitucionais e internos, estes últimos dentro do edifício da Justiça, e uma tipologia de influência que são comuns no portugal democrático e que são fundamentados ideologicamente pela interpretação que alguns operadores judiciais concebem para as suas funções, e que não parece ser compatível com o princípio da lealdade que deve nortear o processo judicial. O segundo problema relaciona-se, claro, com o conteúdo revelado das interceptações. Este é conhecido depois de, pelo menos, uma dupla edição, a do operador judicial e a do jornalista, desligado do seu conteúdo integral, e do contexto em que é gravado. Assim, não é aceitável que a edição do conteúdo, que implica acima de tudo inclusão e exclusão de dados, e depende inteiramente da experiência, conhecimento e convicção dos editores, possa ser confundida, como é a partir do momento em que o conteúdo é publicado, com a verdade factual. O terceiro problema é que a passagem para o espaço público do conteúdo das interceptações transforma estas últimas naquilo que não são. Uma interceptação é uma ferramenta de investigação, no sentido em que permite obter em tempo útil dados que norteiam a descoberta de factos, quando muito um meio provisório ou auxiliar de prova, no sentido em que fornece diversos modos de obter dados decisivos, e raramente um meio de prova isolado ou definitivo. Transformar a natureza de uma interceptação, através da publicação do seu conteúdo, dando-lhe assim um carácter infalível e definitivo é incorrecto e perigoso para todos os envolvidos numa investigação criminal.
A segunda hipótese de análise tem directamente a ver com a tentação de controlo por parte do poder político, especialmente do poder executivo, das empresas de comunicação social. Não é intelectualmente honesto escrever, como alguns dos nosso principais comentadores têm feito nos últimos dias, que é original o hipotético desenho de operação que poderá ter sido executado por elementos da confiança do poder executivo em funções. Na verdade, a história democrática do nosso país desde 1974 é também uma história de permanente tentação e execução de controlo da comunicação social, realizada por todos os quadrantes políticos e alguns económicos. As tipologias para o conseguir são, quase sem excepção, as conhecidas, e os níveis de sucesso e insucesso nestes esforços são também de rápida recordação. Ao nível da propriedade, o financiamento directo ou indirecto, através de fundações, empresas ou bancos, nacionais e internacionais, do capital das empresas de comunicação social, bem como das respectivas receitas. Ao nível da hierarquia editorial, a cumplicidade, imposição ou colocação de chefias nos vários níveis das redacções. Ao nível do acesso, a sedução de jornalistas ou a negação de informações. Assim, deste modo, nasceram e morreram empresas de comunicação social, outras mudaram abruptamente de linha editorial, e, finalmente, outras mantiveram-se constantes porque o exercício da influência é de longa duração temporal e mais profissional. Do mesmo modo existe uma relação directa entre o exercício invisível da influência política na comunicação social e o ciclo "produtivo" do poder executivo, e a sua visibilidade súbita e crispada e o ciclo "problemático" deste último. O que poderá haver de novo na mais recente operação, que só poderá ser analisada quando todos os factos forem conhecidos, é alguma sofisticação conceptual, trazida pelo recurso velado a empresas com capital público e a actos de engenharia financeira, aparentemente anulada por um exercício primário de influência por parte dos condutores da referida operação. De qualquer modo, o que é de apontar mais uma vez é que os projectos de jornalismo em Portugal raramente conseguem escapar à asfixia de serem também projectos políticos, um cenário que apenas atormentaria um número apreciável de jornalistas, mas não a totalidade, não se desse o caso de a informação pública ser vital para uma democracia saudável e um controlo do exercício dos mais diversos poderes.
Uma linha de análise derradeira relaciona -se com a obsessão mediática por parte dos diversos poderes, mas especialmente do poder político, já que, porventura, é este que mais depende da opinião pública para a concretização dos seus objectivos. Neste ponto poderiam ser levantadas várias linhas de discussão, mas será talvez mais útil reduzir a análise apenas aquilo que poderemos chamar, à falta de melhor conceito, de círculo virtual. O que se observa repetidamente quando se passam alguns anos de contacto directo com os poderes constitucionais é o fechamento daqueles que ocupam as respectivas funções num círculo virtual fechado, criado pelos próprios, onde, basicamente, circulam apenas políticos, empresários, magistrados, jornalistas e, pontualmente, polícias. Uma mistura da incapacidade de lidar com os efeitos hipnóticos do controlo temporário do poder, uma tentação irresistível de estender a rede de influências e de a tornar dominante, e uma imaturidade intelectual que faz com se torne insuportável a realidade de que a democracia é um permanente confronto de "checks and balances", levam os membros deste círculo virtual a desenvolver obsessões, a conjurar cenários de conspiração e a desenvolver estratégias de eliminação que não pertencem e nada têm a ver com os interesses maioritários e decisivos da sociedade portuguesa. Na verdade, o mais importante de toda esta conjuntura é ser aparentemente nítido que o poder executivo considerou a questão mediática como prioritária na sua agenda.
A segunda hipótese de análise tem directamente a ver com a tentação de controlo por parte do poder político, especialmente do poder executivo, das empresas de comunicação social. Não é intelectualmente honesto escrever, como alguns dos nosso principais comentadores têm feito nos últimos dias, que é original o hipotético desenho de operação que poderá ter sido executado por elementos da confiança do poder executivo em funções. Na verdade, a história democrática do nosso país desde 1974 é também uma história de permanente tentação e execução de controlo da comunicação social, realizada por todos os quadrantes políticos e alguns económicos. As tipologias para o conseguir são, quase sem excepção, as conhecidas, e os níveis de sucesso e insucesso nestes esforços são também de rápida recordação. Ao nível da propriedade, o financiamento directo ou indirecto, através de fundações, empresas ou bancos, nacionais e internacionais, do capital das empresas de comunicação social, bem como das respectivas receitas. Ao nível da hierarquia editorial, a cumplicidade, imposição ou colocação de chefias nos vários níveis das redacções. Ao nível do acesso, a sedução de jornalistas ou a negação de informações. Assim, deste modo, nasceram e morreram empresas de comunicação social, outras mudaram abruptamente de linha editorial, e, finalmente, outras mantiveram-se constantes porque o exercício da influência é de longa duração temporal e mais profissional. Do mesmo modo existe uma relação directa entre o exercício invisível da influência política na comunicação social e o ciclo "produtivo" do poder executivo, e a sua visibilidade súbita e crispada e o ciclo "problemático" deste último. O que poderá haver de novo na mais recente operação, que só poderá ser analisada quando todos os factos forem conhecidos, é alguma sofisticação conceptual, trazida pelo recurso velado a empresas com capital público e a actos de engenharia financeira, aparentemente anulada por um exercício primário de influência por parte dos condutores da referida operação. De qualquer modo, o que é de apontar mais uma vez é que os projectos de jornalismo em Portugal raramente conseguem escapar à asfixia de serem também projectos políticos, um cenário que apenas atormentaria um número apreciável de jornalistas, mas não a totalidade, não se desse o caso de a informação pública ser vital para uma democracia saudável e um controlo do exercício dos mais diversos poderes.
Uma linha de análise derradeira relaciona -se com a obsessão mediática por parte dos diversos poderes, mas especialmente do poder político, já que, porventura, é este que mais depende da opinião pública para a concretização dos seus objectivos. Neste ponto poderiam ser levantadas várias linhas de discussão, mas será talvez mais útil reduzir a análise apenas aquilo que poderemos chamar, à falta de melhor conceito, de círculo virtual. O que se observa repetidamente quando se passam alguns anos de contacto directo com os poderes constitucionais é o fechamento daqueles que ocupam as respectivas funções num círculo virtual fechado, criado pelos próprios, onde, basicamente, circulam apenas políticos, empresários, magistrados, jornalistas e, pontualmente, polícias. Uma mistura da incapacidade de lidar com os efeitos hipnóticos do controlo temporário do poder, uma tentação irresistível de estender a rede de influências e de a tornar dominante, e uma imaturidade intelectual que faz com se torne insuportável a realidade de que a democracia é um permanente confronto de "checks and balances", levam os membros deste círculo virtual a desenvolver obsessões, a conjurar cenários de conspiração e a desenvolver estratégias de eliminação que não pertencem e nada têm a ver com os interesses maioritários e decisivos da sociedade portuguesa. Na verdade, o mais importante de toda esta conjuntura é ser aparentemente nítido que o poder executivo considerou a questão mediática como prioritária na sua agenda.
20091209
ao serviço total da ideia
uma nova investigação sobre os anos finais de Trotsky (Stalin´s Nemesis: the exile and murder of Leon Trotsky, de Bertrand M. Patenaude), provoca algumas novas reflexões sobre o poder totalitário da ideia. Trotsky não arruinou só a sua vida a partir do momento em que dentro do Kremlin perdeu para Estaline a batalha pelo poder. Na verdade, o carismático líder comunista iniciou ali uma vida de exílio e de fuga que só terminou com o seu assassinato, no México. Mas o que talvez seja mais impressionante é que a decisão de combater pela ideia e pelo poder na União Soviética destruiu também todos os próximos de Trotsky. Com ele para o exílio seguiram a mulher, a única sobrevivente após a sua morte, o filho mais velho e, mais tarde, um neto. A sua primeira mulher e as duas filhas desse casamento foram perseguidas por Estaline, juntamente com os respectivos maridos e filhos. Todos foram assassinados, com excepção de Zina, a filha mais velha, que se suicidou em Berlim. Os dois filhos do segundo casamento foram assassinados. E dos netos, só um, Seva, sobreviveu. Os amigos políticos mais próximos foram também julgados, exilados e mortos. Para Estaline, apagar Trotsky significou apagar todo o seu sangue e todas as suas conexões. Assim, servir uma ideia para o mundo com a vida tornou - se uma realidade, escolhida ou forçada, para Trotsky e os seus.
20091129
a toupeira contemporânea
A toupeira contemporânea usa métodos seculares, mas tem um percurso de conhecimento e habita uma geografia originais. Das suas precursoras, a toupeira contemporânea recuperou o gosto pelos subterrâneos, a faculdade de infiltrar e uma perdição quase obsessiva por ver, escutar e provocar de modo próximo do invisível. Mas tudo o resto no seu mapa genético e na sua carta de objectivos é novo. Três traços distinguem-se acima dos outros: a toupeira está ao serviço do Mal, trabalha sozinha e o seu território é digital, onde os inúmeros pontos das plataformas, os fluxos da redes e os cantos dos chats, sites e serviços lhe permitem uma errância sem fim fora do tempo e do espaço, garantindo-lhe uma caçada interminável. Hoje, a toupeira já não garante a si mesma uma invisibilidade intocável. Tem alguns perseguidores que foram adquirindo conhecimento sobre as suas investidas. Sabe-se que ela gosta de descobrir códigos, de vasculhar lugares privados, de obter lucro e fama. Mas a toupeira, sábia e experiente, segue sempre e penetra quase a vanguarda de todas as novas configurações dos caminhos digitais. Está dissimulada nas redes sociais, com um perfil inofensivo, à procura de amigos cujas partilhas de texto ou de imagem mostram a sua fragilidade a quem seduz com as palavras escolhidas, até as encontrar no mundo real, onde a caçada termina. Ou, habitando esse mundo já estabilizado dos lugares virtuais ou dos jogos online, domina os chats, ou seja os meios de contacto. E depois seduz. Para uma causa, para um acto terrorista, para adquirir valores financeiros. A toupeira contemporânea tem muitas idades e o seu perfil social não tem um padrão, a não ser no ponto em que de vários caminhos chegou a perita do mundo digital. Escondida no nick, na password, no isp e em outras barreiras, a toupeira contemporânea circula e raramente é detectada. Muito menos eliminada.
20091114
tipologia familiar
o bom velho "The Economist" - que continua a ser dos poucos a aguentar o embate com a informação em plataforma virtual - andava já atrás do assunto há uns meses. Na edição de 31 de Outubro último aproveitou para fazer um "briefing" sólido sobre o tema. Segundo os dados reunidos a um nível global, pela primeira vez na história metade da humanidade terá apenas uma taxa de fertilidade de 2.1 ou menos, ou seja aquele número mágico que permite a reprodução das famílias mas não satura o planeta, que, juram os especialistas, precisa de espaço como nunca. Esta originalidade reprodutiva histórica confirma alguns dados, em relação ao mundo desenvolvido, e é fruto de realidades novas, em relação ao mundo em desenvolvimento. Quanto ao primeiro, vem, mais uma vez, confirmar a tese de que quanto mais ricas e desenvolvidas as sociedades, isto é quanto mais a sua estrutura humana é constituída pela classe média, mais a tendência é para os agregados terem apenas um ou dois filhos. Quanto ao segundo, é sem dúvida uma mudança de paradigma. O alcance real muito recente do estatuto de classe média, por um número significativo de pessoas, da Ásia a África, faz que com que a taxa de fertilidade esteja a diminuir violentamente, caminhando, dizem os dados, para que nos próximos anos se chegue à referida taxa de 2.1. Os padrões causais maioritários estão mais ou menos identificados. Quanto mais enriquece uma população, isto é quanto mais se aburguesa, menos filhos gera. As razões para que tal esteja a acontecer, e aconteça há muito no mundo desenvolvido, são fascinantes, e merecem estudos mais aprofundados. De um modo muito primário, os dados indicam que há uma extinção da necessidade de segurança gerada por muitos filhos, dado que o poder económico e de conhecimento garante essa mesma segurança, num nível vasto de campos, do laboral ao habitacional. Por outro lado, as consequências são também, garantem mais uma vez os peritos, quase todas positivas. No mundo em desenvolvimento, é a primeira vez em muitos anos que as sociedades estão equilibradas - isto é a taxa de nascimentos e de idosos é inferior à da população activa - o que cria condições ideais para o desenvolvimento. No mundo desenvolvido, a taxa 2.1. mostra que os novos papéis sociais e produtivos das mulheres continuam a firmar - se no mundo social, caminhando para se constituírem como um paradigma definitivo, e que o abandono do mundo rural é praticamente definitivo. Na verdade, "The Economist", normalmente pouco dado a classificações mediáticas, chama - lhe "uma das mais dramáticas mudanças sociais da História" e parece ser esse o caso. Era tempo, realmente. Menos filhos significa, por exemplo, mais recursos financeiros familiares para um investimento em melhor educação, maior qualidade de vida generalizada, maior exigência e responsabilidade profissional, devido à diminuição da mão de obra disponível, maior capacidade de aquisição de bens secundários. E, claro, não esquecendo uma verdadeira hipótese sólida de o que é ser mulher passar a ser para sempre outra coisa do que foi até aqui. No entanto, a um nível emocional, há qualquer coisa de verdadeiramente triste nesta tipologia familiar padronizada de 2.1. O padrão faz, ou fará, com que na realidade só uma ou, na melhor das hipóteses, duas vezes se viva esse milagre feliz que é acompanhar de perto e em detalhe, com os milhares de experiências que implica, o nascimento e crescimento de um jovem selvagem. Implica igualmente um estado de vigilância alto e definitivo, porque perder um é perder tudo. Finalmente, implica a previsibilidade científica incómoda de que os nossos 2.1 ficarão pelos seus 2.1. Parece definitivamente eliminada a possibilidade daquele caos alegre que só uma casa cheia provoca.
20091021
da visibilidade dos pedaços do terreno
Sudhir Venkatesh é um sociólogo americano hoje mais conhecido pela sua participação em "Freaknomics" e pela partilha que fez dos seus métodos de investigação etnográfica ("Gang Leader for a day"), que, aliás, é um excelente manual de reportagem em qualquer lado do mundo. No entanto, é a sua tese de doutoramento ("Off the books: the underground economy of the urban poor") que contém dados extremamente fascinantes. Venkatesh dedicou-se a estudar, durante um trabalho de terreno prolongado no tempo, uma comunidade de um bairro pobre de Chicago - formada por desempregados, padres, toxicodependentes, membros de gang, operários com pequenos negócios, e hustlers (tradução próxima: intrujas) - procurando conhecer e entender os seus modos de sobrevivência. Os dados obtidos no terreno permitem traçar um sistema económico e social baseado em micro empresas clandestinas - do mecânico do vão de escada à avó cozinheira - de actividade continuamente instável, e dependente de relações de confiança das quais frequentemente se ausenta qualquer tipo de garantia.Toda a actividade social e económica desta comunidade é realizada nas ruas. É aqui que o olhar etnográfico de Venkatesh revela toda a sua capacidade. O que ele leva o seu leitor a descobrir são ruas revistas pelo poder do conhecimento. As ruas deixam de ser cópias que costumamos consumir na ficção cinematográfica - com homens à esquina, hustlers encostados às montras e todo o resto do cenário - para passarem a ser pedaços de terreno onde o posicionamento de cada um tem um sentido e um objectivo. E a luta pela posse de um pedaço estratégico de terreno é a maior causa de conflito na comunidade. A desocultação feita por Venkatesh é um exercício de domínio da paisagem geográfica e social que faz inveja a qualquer investigador.
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