20091129

a toupeira contemporânea

A toupeira contemporânea usa métodos seculares, mas tem um percurso de conhecimento e habita uma geografia originais. Das suas precursoras, a toupeira contemporânea recuperou o gosto pelos subterrâneos, a faculdade de infiltrar e uma perdição quase obsessiva por ver, escutar e provocar de modo próximo do invisível. Mas tudo o resto no seu mapa genético e na sua carta de objectivos é novo. Três traços distinguem-se acima dos outros: a toupeira está ao serviço do Mal, trabalha sozinha e o seu território é digital, onde os inúmeros pontos das plataformas, os fluxos da redes e os cantos dos chats, sites e serviços lhe permitem uma errância sem fim fora do tempo e do espaço, garantindo-lhe uma caçada interminável. Hoje, a toupeira já não garante a si mesma uma invisibilidade intocável. Tem alguns perseguidores que foram adquirindo conhecimento sobre as suas investidas. Sabe-se que ela gosta de descobrir códigos, de vasculhar lugares privados, de obter lucro e fama. Mas a toupeira, sábia e experiente, segue sempre e penetra quase a vanguarda de todas as novas configurações dos caminhos digitais. Está dissimulada nas redes sociais, com um perfil inofensivo, à procura de amigos cujas partilhas de texto ou de imagem mostram a sua fragilidade a quem seduz com as palavras escolhidas, até as encontrar no mundo real, onde a caçada termina. Ou, habitando esse mundo já estabilizado dos lugares virtuais ou dos jogos online, domina os chats, ou seja os meios de contacto. E depois seduz. Para uma causa, para um acto terrorista, para adquirir valores financeiros. A toupeira contemporânea tem muitas idades e o seu perfil social não tem um padrão, a não ser no ponto em que de vários caminhos chegou a perita do mundo digital. Escondida no nick, na password, no isp e em outras barreiras, a toupeira contemporânea circula e raramente é detectada. Muito menos eliminada.     

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