Mostrar mensagens com a etiqueta segurança. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta segurança. Mostrar todas as mensagens

20100722

os guerreiros na praia longe de casa

Foi em 1965 que Sol Yurick, um escritor contemporâneo injustamente esquecido, publicou "Os Guerreiros". A história, modelada num clássico grego, trabalha essencialmente na descrição do regresso a casa através de território desconhecido e hostil de um "gang" juvenil de Nova Iorque. Yurick, que depois de Asbury é talvez o ficcionista que melhor conheceu o imaginário, o pensamento e a acção dos membros de gangs, concentra - se no que provoca a violência contínua exercida pelos guerreiros ao longo do seu caminho. Em termos muito simples, os guerreiros estão longe de casa, o que lhes provoca medo e, ao mesmo tempo, num paradoxo que nunca conseguem resolver, vontade de exibir valentia. Não há manual de compreensão mais adequado para a periódica violência de Verão nos transportes públicos e zonas costeiras da área metropolitana de Lisboa do que a ficção de Yurick. Na verdade, os nossos guerreiros metropolitanos fazem nos dias de calor um longo percurso que os afasta de casa, que os afasta muito de casa. O medo e a bravata, a necessidade de mostrar as suas medalhas, dominam -nos. Deste modo, o fenómeno que é já uma tradição metropolitana lisboeta de Verão não deve ser reduzido apenas a um objecto de segurança, ao contrário do que tem sido até agora, e também não se deve esperar que tenha alguma resolução eficaz. Na verdade, se excluirmos o facto de que a verdadeira questão é a de que porque razão temos guerreiros, tema que suplanta o espaço deste post, o fenómeno é, antes de tudo o mais, uma consequência da mobilidade urbana. Quem conhece as praias da Linha de Cascais, sabe que o fenómeno existe há mais de 30 anos. A única coisa que mudou foi o perfil dos guerreiros. Curiosamente, eles sempre vieram de zonas problemáticas da área metropolitana. Mas, até há 10 anos atrás, vieram das zonas perto da linha de Comboio. Agora, surgem das zonas contíguas às ligações de mobilidade possibilitadas pela expansão do metropolitano, e pelo interface Margem Sul - Cais do Sodré. Assim, aos guerreiros foi permitido caminhar do modo simples e rápido em percursos que no passado recente estavam desconectados, obrigavam a mudanças de transporte e eram caros. Digamos que a passagem dos guerreiros é um efeito colateral do progresso da rede pública de mobilidade, de que Lisboa tanto precisava.  A aventura periodicamente violenta dos nossos guerreiros é também um problema de falta de investigação científica e técnica. No primeiro campo, o científico, precisamos que sociólogos, antropólogos e geógrafos, entre outros, nos encontrem, através de trabalho de terreno, respostas para alguns enigmas sociais estanques. Precisamos de saber porque é que numa praia onde cabem largos milhares de pessoas, apenas algumas exercem violência. Precisamos também de saber porque é que há mais violência nos transportes e praias de Lisboa e Cascais do que na Costa da Caparica. Precisamos igualmente de saber se os guerreiros são reincidentes ou se surgem sempre novos "wannabe". E precisamos finalmente de saber que relações os guerreiros têm entre si. Ao nível da investigação técnica, temos também um número considerável de questões a colocar. Por exemplo, no domínio dos transportes, será que passes de Verão, mais carruagens de comboio e portas fechadas entre carruagens poderiam dar contributos para a redução da violência e do crime? E outro tipo de equipamentos nas praias, iriam permitir concentrações e afastamentos que provocariam um clima de maior tranquilidade?
Em paralelo, obviamente que o trajecto de Verão dos nossos guerreiros é um problema maior de segurança. Os crimes são irrelevantes, mas a violência é tremenda, o que provoca um enorme sentimento de medo. Assim, causou - me especial surpresa que a recente operação policial nos transportes públicos tenha provocado uma atenção muito limitada dos canais de informação. Na verdade, as forças policiais fizeram o que tinham a fazer. O único modo de parar o percurso dos guerreiros é estar junto deles do começo, junto às suas casas, até ao destino final. E o único modo de lhes retirar o medo e a vontade de exibir capacidades é fazer -lhes sentir que não têm hipótese alguma de desvio. No fundo, é a aplicação a uma zona específica, transportes e praias, da teoria das janelas partidas. Assim, a operação policial limitada que foi feita tem de passar a ser sistemática, apoiada em boa informação. Não irá eliminar todos os actos de todos os guerreiros, mas irá mostrar -lhes que não estão em território sem Lei. O investimento policial no percurso dos guerreiros tem um fundamento muito poderoso. É que a manter -se o modo como os guerreiros viajam e apanham sol, irá acentuar - se ainda mais a clivagem social e étnica nos transportes públicos e praias da grande Lisboa que só percebe quem há mais de 20 anos os frequenta.

20091101

identificando o outro

A presença do terrorismo jihadista na Europa provoca um desafio extremo à nossa capacidade de identificar o outro. É um teste que está já para além da nossa resistência a aceitar e a comunicar com a minoria, como tão bem teoriza Appadurai no seu livro mais recente. O problema na identificação do outro - muçulmano, árabe ou asiático, com referências éticas, culturais e sociais distantes - começa logo na aproximação. Este outro é um ser de códigos e territórios distantes ou desconhecidos. Fala outra língua, todos os seus actos estão submetidos a uma cultura estranha, percorre circuitos que nos são invisíveis, que não conseguimos experimentar, ou onde não nos deixam entrar. Na verdade, comemos "indiano" mas nunca vamos à cozinha, entramos nas lojas do eixo Martim Moniz - Castelo, mas não vamos beber chá aos quartos das pensões adjacentes, e muito menos temos acesso às mesquitas oficiais e clandestinas. Por outras palavras, a menos que participemos num acontecimento fora do normal, não temos lá muitos pontos de contacto. A partir desta aproximação deficiente, a nossa identificação - que fazemos a partir dos nossos códigos e das nossas leituras da realidade - tem todas as propriedades para ser incorrecta. O outro, muçulmano árabe ou asiático não residente na Europa, move -se em círculos clandestinos, e aprendeu a proteger - se. Quase certamente, está sempre à beira da ilegalidade, não tem residência autorizada nem contrato de trabalho, e comete mesmo crimes, como a burla com cartões de crédito ou o "casamento branco" com uma cidadã comunitária.Os padrões que outros com mais experiência estabeleceram mostram - nos que o outro, quando cumpre os requisitos acima mencionados, ou é um criminoso em circulação global na União Europeia, ou membro de uma célula terrorista que pacientemente vai entrelaçando os fios necessários a uma operação. Mas, na verdade, o outro, agente de ilegalidades e crimes, pode ser apenas um de nós. Um ser solitário em terras estranhas obrigado a executar actos que condena porque está à procura de uma vida decente para si e para os seus. Neste contexto que hoje vivemos, identificar o outro distante, o muçulmano emigrante, é uma tarefa fascinante para o investigador académico, mas sensível e grave para o investigador de segurança.

20091028

a eficácia do galo e do caldeirão

uma das grandes curiosidades da comunidade de estudiosos do terrorismo jihadista é a de tentar descobrir as causas da eficácia do galo, isto é como é que o Estado francês consegue controlar os seus jihadistas, ao ponto de não ter ainda ocorrido um atentado em França, e das várias operações executadas terem sido anuladas. Na verdade, com 5 milhões de cidadãos muçulmanos, 8 por cento da população, maioritariamente de origem argelina e marroquina, entre os quais se encontram células e organizações jihadistas, com maior ou menor ligação à Al qaeda central, e aos jihadistas nos países de origem, parece forte a possibilidade de o território francês ser vulnerável a atentados. No entanto, até ao momento, não é isso que tem acontecido. Vários estudos, especialmente de Olivier Roy, mostram algumas causas da eficácia do galo. Antes do mais, ao contrário do sistema de multiculturalismo adoptado pelo Estado britânico, os franceses tentam que todos os seus cidadãos partilhem dos valores seculares da república e se sintam franceses. Depois, a esses mesmos cidadãos franceses de etnia não europeia, uma vez integrados nos valores democráticos, republicanos e patrióticos, é dada a oportunidade de servirem o Estado, nos vários serviços de segurança. O escudo do galo tem duas camadas: da sociedade francesa fazem também parte os muçulmanos de origem étnica árabe, o conhecimento das comunidades étnicas, porque obtido por cidadãos que a elas pertencem, é elevado. Uma mesma experiência, em menor escala, foi concretizada com êxito em Nova Iorque, como relata Dickey numa investigação recente. A polícia de Nova Iorque sabe que nunca teria êxito contra as comunidades jihadistas locais se não as penetrasse com elementos muçulmanos. Lançou um concurso interno para o recrutamento de muçulmanos com domínio de línguas árabes, ao qual responderam centenas de agentes. A CIA e o FBI tinham tentado o mesmo, com fraca adesão. A razão é simples: a polícia de Nova Iorque é um espelho do caldeirão étnico da sua cidade, a CIA e o FBI representam o elitismo wasp.A eficácia do galo e do caldeirão deviam fazer reflectir o Estado português, do ministério da Educação ao da Administração Interna. O esforço de integração na sociedade, das escolas à entrada na função pública, das várias etnias tradicionais e recentes fixadas em Portugal é quase inexistente. E num dos sectores onde a presença e o saber de elementos integrados das minorias étnicas é fundamental, o da segurança, o estado português, mais por inércia do que por preconceito, é mais elitista do que a CIA e o FBI. O seu escudo, ao contrário do francês, não é de titânio.

20091027

o MI 5 dita o caminho

Está já nas bancas globais e virtuais a história dos 100 anos do MI5, o serviço de informações internas do Reino Unido. O projecto foi executado nos últimos anos pelo historiador de Cambridge Christopher Andrew (que entrevistei em 1995, sem grandes emoções para relatar, a não ser ter de correr atrás da sua bicicleta, de gravador no ar, para as perguntas finais), com a total colaboração do MI 5, isto é a abertura total dos arquivos, com a excepção da reserva de fontes ainda fundamentais ou de operações não concluídas. Andrew, que trabalhou de modo totalmente independente, cobre toda a actividade do MI 5 até aos nossos dias, incluindo os temas mais sensíveis: toupeiras soviéticas nos serviços britânicos, o conflito na Irlanda do Norte, o contra - terrorismo contra a acção jihadista. O projecto, que assinala os 100 anos do MI 5, partiu do próprio director do serviço em 2000, Stephen Lander. O MI 5 é o primeiro serviço de "intelligence" ocidental a abrir os seus arquivos da actividade contemporânea, e invoca duas razões principais para o fazer. A primeira é a de corresponder, na medida do possível, ao princípio da transparência democrática. A segunda é a de a partir dessa transparência ganhar o apoio dos cidadãos, sem o qual, confessam os responsáveis do serviço, não será possível ter uma acção eficaz contra o terrorismo e o crime organizado. A operação transparência lançada pelo MI 5 deveria fazer pensar um pouco os responsáveis pelo edifício de segurança português, esse alvo da desconfiança, desprezo e ódio dos cidadãos.

20091019

A irrelevância da PSP

A tese de doutoramento de Susana Durão, que já existe em livro com o título "Patrulha e Proximidade" é um dos poucos documentos sólidos que temos sobre a Polícia de Segurança Pública (PSP) contemporânea. A investigadora esteve no terreno durante um longo período de tempo, acompanhando a vida de uma esquadra de Lisboa. O trabalho dá-nos uma série fabulosa de dados sobre a ideologia, o imaginário e a praxis dos homens da PSP que nos "serve e protege", mas aqui gostaria apenas de pensar um pouco sobre como os dados empíricos obtidos nos permitem lançar várias pistas que sustentam a hipótese de que existe hoje um enorme fosso entre o que os polícias querem que seja a PSP a que pertencem e aquilo que nós queremos dela. Os polícias querem fazer investigação criminal, aquilo a que chamam "serviço operacional". Nós cidadãos queremos uma polícia que nos proteja, e que seja o agente de autoridade numa sociedade urbana cada vez mais conflituosa. Deste modo, os polícias estão orientados para o que chamam os "bons serviços", ligados à investigação sumária do tráfico de droga e aos furtos, e nós gostaríamos de ter alguém com poder atribuído para resolver o caos rodoviário, e as pequenas violações cívicas e éticas do espaço comum e público. Desta fractura profunda de objectivos, nascem alguns desencontros. Os polícias procuram investigar o que para eles é importante, nós sentimos que eles não respondem ao que nos interessa. Os polícias tendem a acreditar no nós contra eles, e ignoram por exemplo o patrulhamento a pé, a única estratégia de conhecer a comunidade que patrulham e ganhar informação. Nós gostaríamos de conhecer alguém que pudéssemos chamar, e também confiar. Existindo já uma polícia de investigação na arquitectura de segurança nacional, a Polícia Judiciária, e tendo a própria PSP uma divisão com esse objectivo, não será um risco muito grande defender que se a força da PSP no terreno não mudar a sua estratégia, o seu papel será cada vez mais irrelevante para aqueles que deve proteger.