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20100409
o chinaman e a extinção dos limites do multiculturalismo
É quase um axioma para qualquer cidadão ocidental minimamente atento que a melhor hipótese de sobrevivência de sociedades velhas e gastas como a portuguesa está na injecção de novo DNA. Deste modo, a militância activa pela opção multicultural está entre aqueles que considero como os meus deveres essenciais. Antes do mais, nas escolas, especialmente nas de elites, e no mercado de trabalho. Em termos muito rudimentares, a ideia é a de que integrar a diversidade enriquece toda a gente, e quanto maior conhecimento for adquirido por todos os diferentes, mais dinâmica fica a sociedade, isto é, todos nós. Além de que, claro, a uniformidade é monótona. Mas mais interessante ainda, dizem os teóricos, é conseguir a combinação quase mágica entre novo DNA e o melhor dos traços nacionais da sociedade acolhedora. Um palco de combate essencial para esta luta é o bairro, claro, já que inúmeros estudos científicos e empíricos mostram que a integração resulta sempre melhor quando o Outro é aceite numa pequena comunidade local, ou seja, a rua, o bairro, a zona. Daí que defender a vinda de imigrantes para uma sossegada rua de um bairro de classe média da ainda mítica mas muito abalada linha de Cascais tenha sido sempre uma aposta pessoal, embora, claro, levante periodicamente as sobrancelhas cépticas de muita gente. Na verdade, mostra felizmente a realidade, os cépticos podem beneficiar do conforto que é garantido pela imobilidade, e têm certamente a sabedoria de que as mudanças geralmente são perigosas, mas a realidade mostra que a sociedade portuguesa é uma daquelas que com maior eficácia consegue integrar toda a diferença, enriquecendo -se de modo decisivo. De facto, no espaço da minha latitude, os brasileiros, os angolanos, os ucranianos e especialmente o chinaman e o seu clã de geometria variável provam que os limites do multiculturalismo são extintos pela poderosa capacidade portuguesa de entranhar nos outros os seus valores básicos de modo rápido e eficiente . Os brasileiros foram recebidos de braços abertos, beneficiando daquela lenda de povo aberto, alegre, improvisador e easy going. É tudo verdade. É fantástico descobrir que aberto significa ter 23 "caras" a viver harmoniosamente num T0, contornando assim a crise económica, alegria que as dj sessions de forró são até às 3 horas da manhã para o bairro todo, o que revela um profundo sentimento comunitário, improvisador que o átrio do prédio sirva para abrir um restaurante de "churrasquinho", o que é um exercício notável de empreendedorismo, e easy going uma aventura impossível de descrever. Os angolanos foram uma aposta pessoal, por razões biográficas. O trio de rapazes que uma noite chegou teve isso em conta. A actividade mais integradora que periodicamente exercem é a de se pegarem à pancada às duas da manhã, com a porta do apartamento aberta, por causa do Benfica, do Sporting e do Amadora, e participam activamente nas culturas juvenis em alta, nomeadamente "kitando" e experimentando até ao nervo os Seat Ibiza durante a noite na nossa extensa rua de 150 metros. Os ucranianos, tenho de admitir, são o meu caso mais complicado. Uma família honrada e trabalhadora, com dois filhos à entrada da idade adulta. Mas, tirando o facto de terem colocado uma corda de estender a roupa que ocupa toda a largura do prédio, onde a cada 48 horas são colocadas três máquinas de roupa preta, o que prova aquele asseio alentejano clássico, não consigo detectar nenhum sinal integrador, até porque as minhas tentativas de meter conversa são sempre recebidas com um "pois, pá". Pelo contrário, o chinaman e o seu clã são o meu motivo de orgulho. Antes de tudo o mais, provaram que as linhas teóricas recentes de comunitarismo urbano estão absolutamente correctas, e abriram uma pequena frutaria de bairro. É extremamente porreiro, vizinho. As velhinhas, que já não se mexem, vão lá fazer o seu avio diário, aprenderam umas palavras de cantonês, e os jovens profissionais urbanos que chegam tarde a casa sempre sabem que às 20h30 ainda podem comprar uma bananinha para comer com o iogurte, ou uma maçã para enfeitar a pizza congelada. É verdade que a frutinha não dura mais do que 12 horas, e feitas as contas os preços são um negócio da china para o vendedor, mas é o imposto do local e da comodidade. Mas o que realmente me encanta é a carrinha de carga, que para mim é um símbolo notável de como o espírito português contamina de modo absoluto todos os que vêm de fora para lutar pela vida. O chinaman, como todos os pequenos empreendedores nacionais de comércio e serviços, têm uma grande carrinha de carga branca, daquelas com uma altura de um 1º andar. Ora, o chinaman tinha um problema: a sua frutaria é na esquina, tinha de descarregar diariamente o material, e como todos nós era afectado por aquela grande calamidade nacional de nunca ter lugar para estacionar mesmo à porta de casa. A princípio, o chinaman parava na passadeira de peões, mas era uma solução precária, porque via que todos nós cumprimos a Lei, e que o grosso da sua clientela são velhinhas que têm horror a atravessar fora da passadeira. Foi aqui que o chinaman e o seu clã mostraram o seu elevado grau de integração, ao revelarem aquele engenho tão especificamente português. O chinaman mandou um dos membros do clã esperar, até conseguir ver um lugar de estacionamento vago mesmo, mesmo na esquina da frutaria. Quando finalmente, ao fim de umas semanas, o lugar vagou, o membro do clã ocupou - o com o pequeno Kia roxo, conseguindo, com uma manobra cheia de yiang, antecipar -se ao almirante reformado que avançava com o seu Honda de 1995, há cinco anos parado no passeio, por debaixo do estore do seu rés- do- chão. Houve uma troca de insultos durante uns minutos, mas nada de extraordinário. A partir daqui, o chinaman provou ser um verdadeiro português. A dinossáurica carrinha branca está fixa no lugar de estacionamento, e serve de armazém da fruta, que várias vezes ao dia é transferida para a frutaria por duas senhoras do clã. À noite, a fruta volta para a carrinha, garantindo assim todas as condições de higiene e ventilação que garantem a sua frescura. Uma vez por semana, entre as 5 horas e as 8 horas da manhã, quando o chinaman tem de ir ao MARL reabastecer, faz - se acompanhar por outro membro do clã, que desloca o Kia roxo para o meio do lugar. O almirante topou a coisa, e tentou um golpe de guerrilha numa madrugada de semana, mas o chinaman pôs -se à frente dele com a carrinha. Deste modo, a situação de lugar reservado prolonga - se já há vários meses. Um analista parcial e resistente à integração multicultural dirá que temos aqui um exemplo vivo de egoísmo, manhosice, mesquinhez e falta de respeito pelo espaço público, inaceitáveis numa sociedade evoluída e tolerante. Mas eu, que recuso que aqueles traços sejam constituintes da personalidade colectiva nacional, vejo apenas um exemplo superior de estratégia, disciplina, tenacidade e individualismo que não só são os traços essenciais de qualquer povo vencedor, como são indicadores do nosso melhor espírito nacional.
20091223
a vacina não é só uma opção individual
Existem duas razões poderosas para tomar uma vacina, especialmente quando está em causa uma pandemia provocada por um vírus de fácil disseminação, como é o da gripe A. A primeira é bastante simples: a vacina garante uma taxa alta, mas não absoluta, de protecção ao vacinado. A segunda é mais complexa, e, no actual contexto português, tem sido sistematicamente ignorada, especialmente por grupos de referência, como são os enfermeiros e médicos: tomar a vacina é um acto de profundo civismo comunitário, já que corta a pandemia num ponto individual da cadeia de infecção. No que concerne o primeiro argumento para tomar a vacina, há que tentar separar a evidência científica existente, que não pode ser tomada como definitiva, e o ruído argumentativo sem sustentação científica.
O material científico produzido até agora, pelas próprias farmacêuticas, mas também por organismos científicos independentes, de controlo e de investigação, mostra que a vacina é a única protecção eficaz contra o vírus. Mostra igualmente que não foram identificados ainda efeitos secundários que representem um risco presente ou futuro para a saúde de quem se vacina. O "ainda" é muito importante, já que na medicina, como em qualquer área científica, a investigação é permanente, fazendo com que os paradigmas de hoje sejam destruídos amanhã.
Apesar de todo este material sólido, que deve ser constituído como matéria importante de apoio a uma decisão, o fenómeno, que é global, dos "cidadãos e pais anti - vacina", tem um peso enorme, não só em relação a esta vacina, como no que concerne a maior parte delas. O movimento, extremamente organizado em muitas paragens, como os EUA, suporta - se numa série de argumentos, da crença que as vacinas provocam doenças, totalmente refutada pelos vários estudos científicos, à convicção de que o objectivo é o lucro das farmacêuticas, quando a vacina é o produto menos rentável do seu catálogo, até à aplicação de uma ideologia, por exemplo anti - capitalista, ao objecto "vacina". E, claro, basta uma pequena sondagem junto do meio privado de cada um para encontrar argumentos como os seguintes: "os meus filhos são saudáveis, não precisam", "a vacina não protege nada", "o médico acha que não é fundamental".
O efeito deste argumentário numa comunidade, quando é aceite por um grupo considerável de cidadãos, é devastador. Um artigo recente na Wired (An Epidemic of Fear, Amy Wallace, Outubro de 2009) é uma boa introdução ao que está em causa. O principal facto a reter é que sempre que uma vacina não é tomada, a protecção desaparece, permitindo, entre outras consequências, o regresso massivo de vírus dominados durante décadas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o retorno da rubéola em algumas regiões americanas.
A reflexão em torno do segundo argumento para tomar a vacina devia ser profunda, mas, especialmente em Portugal, é totalmente ignorada. Um artigo científico publicado em 2002 no "The Journal of Infectious Diseases", que teve como grupo de pesquisa 3292 pessoas que contraíram rubéola na Holanda, é cristalino. A principal conclusão é que é mais BAIXA a probabilidade de uma pessoa não - vacinada contrair o vírus numa comunidade vacinada, do que a possibilidade de o mesmo lhe acontecer quando está vacinada mas circula numa comunidade não vacinada. A evidência parece definitiva no ponto em que não tomar a vacina significa que quem não o faz está a colocar em perigo toda a comunidade com que se relaciona. Assim, o acto de vacinação é também uma acção cívica e comunitária.
Deste modo, no actual contexto português, devemos sublinhar várias perplexidades, das quais destaco apenas algumas. Antes do mais, porque é que as entidades públicas não proporcionam informação mais personalizada e rigorosa aos cidadãos, que lhes sirvam de apoio à decisão. Segundo, como é que médicos e enfermeiros podem recusar a vacina, e tornar essa decisão pública, sem que sejam alvo de um inquérito pessoal por parte das suas tutelas. Terceiro, como é que médicos de família e pediatras, decisivos na influência que possuem junto dos seus pacientes, aconselham a não tomada de vacina, sem que tenham de fundamentar oficial e formalmente a sua opção. Quarto, como é que os indivíduos de vários grupos profissionais, com contacto directo permanente com vários níveis de população, podem tomar sozinhos, em nome da liberdade individual, uma decisão que não os afecta só a eles.
O material científico produzido até agora, pelas próprias farmacêuticas, mas também por organismos científicos independentes, de controlo e de investigação, mostra que a vacina é a única protecção eficaz contra o vírus. Mostra igualmente que não foram identificados ainda efeitos secundários que representem um risco presente ou futuro para a saúde de quem se vacina. O "ainda" é muito importante, já que na medicina, como em qualquer área científica, a investigação é permanente, fazendo com que os paradigmas de hoje sejam destruídos amanhã.
Apesar de todo este material sólido, que deve ser constituído como matéria importante de apoio a uma decisão, o fenómeno, que é global, dos "cidadãos e pais anti - vacina", tem um peso enorme, não só em relação a esta vacina, como no que concerne a maior parte delas. O movimento, extremamente organizado em muitas paragens, como os EUA, suporta - se numa série de argumentos, da crença que as vacinas provocam doenças, totalmente refutada pelos vários estudos científicos, à convicção de que o objectivo é o lucro das farmacêuticas, quando a vacina é o produto menos rentável do seu catálogo, até à aplicação de uma ideologia, por exemplo anti - capitalista, ao objecto "vacina". E, claro, basta uma pequena sondagem junto do meio privado de cada um para encontrar argumentos como os seguintes: "os meus filhos são saudáveis, não precisam", "a vacina não protege nada", "o médico acha que não é fundamental".
O efeito deste argumentário numa comunidade, quando é aceite por um grupo considerável de cidadãos, é devastador. Um artigo recente na Wired (An Epidemic of Fear, Amy Wallace, Outubro de 2009) é uma boa introdução ao que está em causa. O principal facto a reter é que sempre que uma vacina não é tomada, a protecção desaparece, permitindo, entre outras consequências, o regresso massivo de vírus dominados durante décadas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o retorno da rubéola em algumas regiões americanas.
A reflexão em torno do segundo argumento para tomar a vacina devia ser profunda, mas, especialmente em Portugal, é totalmente ignorada. Um artigo científico publicado em 2002 no "The Journal of Infectious Diseases", que teve como grupo de pesquisa 3292 pessoas que contraíram rubéola na Holanda, é cristalino. A principal conclusão é que é mais BAIXA a probabilidade de uma pessoa não - vacinada contrair o vírus numa comunidade vacinada, do que a possibilidade de o mesmo lhe acontecer quando está vacinada mas circula numa comunidade não vacinada. A evidência parece definitiva no ponto em que não tomar a vacina significa que quem não o faz está a colocar em perigo toda a comunidade com que se relaciona. Assim, o acto de vacinação é também uma acção cívica e comunitária.
Deste modo, no actual contexto português, devemos sublinhar várias perplexidades, das quais destaco apenas algumas. Antes do mais, porque é que as entidades públicas não proporcionam informação mais personalizada e rigorosa aos cidadãos, que lhes sirvam de apoio à decisão. Segundo, como é que médicos e enfermeiros podem recusar a vacina, e tornar essa decisão pública, sem que sejam alvo de um inquérito pessoal por parte das suas tutelas. Terceiro, como é que médicos de família e pediatras, decisivos na influência que possuem junto dos seus pacientes, aconselham a não tomada de vacina, sem que tenham de fundamentar oficial e formalmente a sua opção. Quarto, como é que os indivíduos de vários grupos profissionais, com contacto directo permanente com vários níveis de população, podem tomar sozinhos, em nome da liberdade individual, uma decisão que não os afecta só a eles.
20091215
aventureiros desconhecidos
Há homens que partem em silêncio apesar de terem realizado feitos gloriosos. Francisco Frias de Barros, engenheiro geógrafo, faleceu recentemente, e em total silêncio mediático. O mesmo silêncio que o encerrou a ele e aos seus camaradas de ofício, apesar de terem sido a última geração da grande aventura terrestre africana. Na verdade, é um pouco absurdo ver os americanos a reproduzirem em Hollywood os fantásticos feitos de Mason, Dixon, Burton, Stanley e Livingstone, com o apoio sempre discreto da Coroa inglesa, quando por cá um punhado de bravos fez o mesmo e muito mais a partir do século, como testemunha, detalhadamente, "Viagens de exploração terrestre dos portugueses em África", de Maria Manuela Madeira Santos, uma pérola sequestrada nas prateleiras dos alfarrabistas. Foi um pouco atrás da reconstrução desta aventura que há uns anos fui incomodar Frias de Barros, num gabinete silencioso esquecido em Belém. Foram uns dias bem passados, já que facilmente fui contaminado por aquela história. Apesar da sua idade, Frias de Barros tinha uma boa memória, e uma compreensão fácil para a partilha do detalhe que uma boa história exige. E, por outro lado, o gabinete e salas adjacentes guardavam todo o material da aventura, inclusive as notas de campo, o que é uma espécie de tesouro. A epopeia destes homens é na essência simples: andaram nas latitudes desconhecidas de Angola e Moçambique a retirar coordenadas para o império ter um mapa do seu território. Fizeram - no e isso é extraordinário.
20091111
o afastamento do relvado
São indispensáveis muitos momentos marcantes no tempo para reconhecer o afastamento, especialmente quando são paixões que, entre outras marcas, construíram a nossa identidade. A actual quase dispensabilidade do futebol é uma operação sentimental que me surpreendeu, e de difícil reconhecimento. Na verdade, estamos a escrever sobre a destruição, ou a sua arrumação no passado, de um património intimo. Temos, sempre primeiro do que tudo, as inúmeras manhãs, tardes e noites gloriosas em campos desconhecidos - de escolas, bairros, ruas, clubes e sociedades - onde consegui imitar o Sepp Maier e o Thomas N´´Kono, brilhar no céu estrelado e colher os louros de quem via. Há momentos, jogos e episódios que ainda hoje recordo ao pormenor, gravados pelas minha camera pessoal. Parte desta felicidade, aliás, está ficcionada no conto "Protecção ao Ponta de Lança", incluído em "Cerco a um Duro". Nesses tempos, era tão importante jogar como ver e ler futebol. Havia magia nas páginas da "Bola" e do "Record", consumidas ao parágrafo, lentamente, e nos relatos radiofónicos de quarta - feira à noite, ouvidos debaixo da cama, entre lágrimas pelas derrotas europeias do Benfica nos anos 80. E, obviamente, foi este o tempo da chegada da imagem. Primeiro, de repente, um Roma - Benfica de quarta - feira à tarde, transmitido pela RTP. E uma final da taça de Inglaterra entre o Totenham e o Manchester City, com Ardilles e Villa a brilharem. E depois ainda a magia imortal do Espanha 82, com as defesas impossíveis de N´Kono, e a arte suprema do futebol por um sexteto impossível de repetir: Júnior -Cerezo-Falcão-Zico- Sócrates - Éder. E finalmente, o desespero do Europeu de 84, onde só faltou ambição às quinas. É um património iluminante que deveria ter ficado para sempre. Tentando racionalizar emoções, é possível escrever que o afastamento começa nos anos 90. Primeiro, com a destruição do Benfica, que perdura, tão eficaz que o clube nunca mais teve uma equipa, isto é um grupo de jogadores com alma para dar tudo. Depois, sem querer ser idealista, com a fixação definitiva da competição como um gigantesco negócio global, alimentado pelas televisões. Claro que, no meio destes tempos, houve momentos de recuperação da felicidade. Algumas finais dos Campeões Europeus, a campanha nacional em 2000. E, acima de tudo, a histórica campanha do FCP em 2004. Aliás, histórica porque deve ficar na história de portugal e do futebol. O que transformou um grupo de jogadores de qualidade, mas sem nenhuma super estrela, em campeões foi, sem dúvida, um treinador genial, mas principalmente a aplicação da qualidade decisiva dentro do campo: a garra, a alma, o trabalhar para a glória. Acho que nunca sofri tanto como nos dois Porto - Coruna, já que o resultado da final "estava escrito nas estrelas". Curiosamente, foi também em 2004 que o afastamento foi confirmado. Na verdade, era impossível perder a final do Europeu. Com uma campanha imaculada, uma Nação levantada, os adversários de joelhos, mostrou - se naquele jogo que o portugal estrutural é difícil de matar. Se o FCP foi a prova de que uma cultura nacional pode ser eliminada, a selecção foi a prova de que uma cultura nacional é muito resistente. O medo, o medo, o medo, e a resignação à incapacidade de dar tudo no momento decisivo. É ridículo, mas no intervalo desse jogo triste, só me lembrava que o Al Pacino devia ter sido chamado ao balneário das quinas.
E ali, para mim, confirmou - se o afastamento do relvado. Claro que não é uma decisão absoluta. Há sempre uma enorme alegria em ver os olhos de Essien quando as coisas correm mal ao Chelsea, ou os bailados do meio campo do Barcelona. Mas o futebol é hoje um jogo determinado pelo dinheiro, saturado pelas imagens, e onde contributo nacional é de segunda linha, por mais emoções plásticas que as televisões inventem.
E ali, para mim, confirmou - se o afastamento do relvado. Claro que não é uma decisão absoluta. Há sempre uma enorme alegria em ver os olhos de Essien quando as coisas correm mal ao Chelsea, ou os bailados do meio campo do Barcelona. Mas o futebol é hoje um jogo determinado pelo dinheiro, saturado pelas imagens, e onde contributo nacional é de segunda linha, por mais emoções plásticas que as televisões inventem.
20091110
os livros chegaram
Ocorreram episódios pessoais de livros que hoje parecem ridículos. Como chegar primeiro que os funcionários à "Foyle´s", em Londres, e ficar ainda quinze minutos ao frio e à chuva. Mas o horário do avião não permitia outra hipótese. A "Foyle´s", aliás, foi, desde a sua descoberta, um templo provocador de problemas. Pisos e mais pisos de livros, todos eles sobre temas que interessavam. Descobrir, é este a palavra certa, autores, temas e edições. Como fazer a selecção? Trazer só livros de trabalho, ou só de ficção, ou só de viagem, ou tentar o impossível "mix"? Não é fácil, nada fácil na verdade, circular de metro entre Charing Cross e o aeroporto com demasiados quilos de papel na mão. De igual modo, é preciso não esquecer o primeiro contacto com a "Border´s", em Chicago, bem no fundo da "Magnificent Mille". Aquele conceito de meter os livros debaixo do braço, sentar numa mesa, pedir um café e um "brownie" e ficar por ali umas horas tinha, na altura, a classificação de magia. A fidelidade à "Border´s" provocou alguns erros, é preciso reconhecer. O sacrifício da "Foyle´s" em favor da "Border´s" londrina, em Oxford Street, foi sempre uma má opção. Caótica, suja, com opções "mainstream", não devia ter sido preferida. Mas estes foram apenas assaltos de "search and leave", existiram operações mais delicadas e demoradas. Porventura a mais complexa, e absurda, foi a derradeira em Chicago, no penúltimo dia de seis meses de bolsa na universidade. Um objectivo impossível: trazer todo o conhecimento básico de uma só vez. Regras de empenhamento: entrar na livraria da universidade e só sair de lá com a missão cumprida. Relatório final: perto de 30 livros, enviados pela UPS para Lisboa, e o dispêndio de 40 contos, em 1997. Parecem actos dementes, sem dúvida, mas havia argumentos para serem praticados. As nossas gloriosas livrarias, hoje cantadas como templos carinhosos do saber arruinados pela FNAC, levavam três meses para entregar o livro, e aumentavam três a cinco vezes o preço. E um dia chegou esse milagre chamado Amazon, a que se seguiu, recentemente o Book Depository. Não é imediato encontrar palavras para contar a habitação desse milagre. A busca era, e continua a ser, o melhor dos passos. Percorrer os campos, descobrir autores, identificar títulos, juntar oos objectos do desejo num cesto que é o nosso. Depois, a angústia da escolha. Eliminar, em nome da realidade financeira. E, terceiro passo, voltar ao mundo real português. A passagem a perito da distribuição postal nacional, especialmente desde que o último elo da cadeia, o carteiro, passou a recibo verde. Conhecer o circuito todo. Encomendar ao domingo para chegar à quarta-feira, evitar épocas festivas. Controlar o carteiro manhoso que não traz encomendas porque são pesadas, e o seu colega que mete o postal de aviso na caixa do correio, no lugar de tocar à campainha, porque ganha tempo. Ser amigo do boss do CDP ( Centro de Distribuição Postal) da área, para conseguir entrega imediata e segura. E, deste modo, matar a geografia, e o mercado nacional fechado. Os livros chegaram. O tremendo prazer de terem saído de um armazém no outro lado do mundo e estarem aqui agora nas minhas mãos. O primeiro contacto, o melhor. A capa, a contracapa, os agradecimentos, o índice, a bibliografia. A tomada de lugar na pilha. Não há muitos momentos como aquele em que os livros chegaram.
20091025
a memória não guarda todos
A memória não guarda todos. Quando os guardadores dos passados que em algum momento foram comuns se reúnem, e cruzam as memórias do que partilharam, há sempre alguns que não são trazidos das sombras. Ficam abandonados nesse passado, como se não tivessem existido no presente invocado tão distante. O que poderá ter acontecido para que assim seja é um mistério. Na maior parte dos casos, é um mistério sem nada de grave. Os desaparecidos para sempre foram apenas aqueles que nunca saíram do seu quotidiano silencioso e retirado, ou talvez com vidas demasiado ricas que lhes tornavam desnecessárias novas pertenças. Mas, sendo com toda a probabilidade essas as explicações, há, ao mesmo tempo, qualquer coisa de muito triste neste desaparecimento à partida que se prolonga sem alterações no futuro. Não ter sido conhecido, não ter marcado alguma coisa em alguém e ter sido marcado por outro alguém, não ter construído um ponto comum de passado, pode poder ser uma solidão pesada. Mesmo que nada de errado determine hoje o percurso dos desaparecidos, eles nunca terem existido nos outros é uma escuridão que não se suporta.
20091023
a carrapateira vai à rede
O nó central de um dos últimos paraísos na Europa, o sítio da Carrapateira, na Costa Vicentina, tem já na rede um site comunitário, que estará totalmente operacional em Janeiro do próximo ano. O site, e outros esforços de transformar os habitantes do local numa comunidade, partiu de uma ideia de um casal flamengo, Koen e Hilde, há muito residente na Carrapateira, e de alguns pares seus com vontade de concretizar projectos. A Carrapateira tem tudo para ser uma comunidade exemplar e um projecto social e económico de elevado sucesso. A população é reduzida, o que facilita a eficácia do debate e da decisão, o local é maravilhoso, as possibilidades de acção micro - empresarial são múltiplas, todas elas ecológicas, ligadas ao mar e à terra. No entanto, até agora pouco aconteceu. Na década que levo já de anualmente demandar à Carrapateira, um dos exercícios que realizo sempre é o de me sentar de madrugada no café da praça, e tentar imaginar a Carrapateira ideal, um pouco como o bom do Tyler faz semanalmente no "Financial Times" em várias paragens do mundo, com mais talento do que eu. A primeira coisa que eu fazia era criar uma marca para o local. O logo "Karra", juntamente com um lagarto vermelho, uma criação de um jovem franco - português talentoso natural da Carrapateira, seria o meu escolhido. E obviamente a "Karra" estaria em todo o lado do sítio, especialmente nas lojas e nos acessos rodoviários. Depois, pegando em um dos vários "chefs" que hoje felizmente dão consultadoria, criaria "menus" comuns ou complementares entre os vários estabelecimentos de restauração do local, para que a oferta cobrisse pequeno - almoço, brunch, almoço, cocktail hour, jantar e "after - hours". Aliás, a partir desta base criaria um serviço de pequenos - almoços ao domicílio e "beach lunch" que tanta alegria daria aos veraneantes. A opção dos menus comunitários tem, acima de tudo, para mim, objectivos empresariais. Antes do mais, permitiria aos empresários da restauração uma logística integrada, com as inerentes poupanças. Depois, iria garantir a difusão da marca, nos cestos e outros objectos usados na distribuição dos pequenos - almoços e beach lunch. Mas, finalmente, permitiria também a ocupação de alguns idosos, na concepção e fabrico de objectos locais, como cestos, para a distribuição da papinha. Bem oleado este sistema, avançaria depois para serviços e sinergias. Logo de partida, um serviço de "baby - sitting" flexível, que daria trabalho a adolescentes e adultos desempregados. Depois, um transporte de grupo regular para as praias, que eliminaria o problema ecológico das viaturas privadas nas dunas e na areia. Já nas sinergias, parece - me por demais óbvio como todos poderiam ganhar: os alugueres de casa no local garantiriam "vouchers" nas escolas de surf locais e "happy hour" nos bares, e vice - versa, isto é, por exemplo, um curso de "surf" daria desconto no aluguer. Mas o que realmente me entusiasma é que a Carrapateira tem um potencial enorme para escapar à monotonia da oferta radical e ecológica. Os pescadores reformados poderiam fazer passeios nos seus botes e explicar as suas artes, os agricultores poderiam organizar visitas às suas produções e vender directamente os produtos. Numa síntese imperfeita, o que eu vejo é um projecto de grande beleza e sustentabilidade. Há só um pequeno problema: E como é que se gere isso tudo? Exacto, esta é a minha maior ambição. Na minha imaginação, a Carrapateira seria gerida por um conselho democrático de habitantes, que, exactamente, soubesse lidar com o conflito e fosse capaz de o resolver, e que substituísse a habitual inércia e cinismo do poder autárquico. Claro que para isto o conselho e os habitantes teriam que perceber a natureza de uma comunidade. Claro que sim.
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