20091110

os livros chegaram

Ocorreram episódios pessoais de livros que hoje parecem ridículos. Como chegar primeiro que os funcionários à "Foyle´s", em Londres, e ficar ainda quinze minutos ao frio e à chuva. Mas o horário do avião não permitia outra hipótese.  A "Foyle´s", aliás, foi, desde a sua descoberta, um templo provocador de problemas. Pisos e mais pisos de livros, todos eles sobre temas que interessavam. Descobrir, é este a palavra certa, autores, temas e edições. Como fazer a selecção? Trazer só livros de trabalho, ou só de ficção, ou só de viagem, ou tentar o impossível "mix"? Não é fácil, nada fácil na verdade, circular de metro entre Charing Cross e o aeroporto com demasiados quilos de papel na mão. De igual modo, é preciso não esquecer o primeiro contacto com a "Border´s", em Chicago, bem no fundo da "Magnificent Mille". Aquele conceito de meter os livros debaixo do braço, sentar numa mesa, pedir um café e um "brownie" e ficar por ali umas horas tinha, na altura, a classificação de magia. A fidelidade à "Border´s" provocou alguns erros, é preciso reconhecer. O sacrifício da "Foyle´s" em favor da "Border´s" londrina, em Oxford Street, foi sempre uma má opção. Caótica, suja, com opções "mainstream", não devia ter sido preferida. Mas estes foram apenas assaltos de "search and leave", existiram operações mais delicadas e demoradas. Porventura a mais complexa, e absurda, foi a derradeira em Chicago, no penúltimo dia de seis meses de bolsa na universidade. Um objectivo impossível: trazer todo o conhecimento básico de uma só vez. Regras de empenhamento: entrar na livraria da universidade e só sair de lá com a missão cumprida. Relatório final: perto de 30 livros, enviados pela UPS para Lisboa, e o dispêndio de 40 contos, em 1997. Parecem actos dementes, sem dúvida, mas havia argumentos para serem praticados. As nossas gloriosas livrarias, hoje cantadas como templos carinhosos do saber arruinados pela FNAC, levavam três meses para entregar o livro, e aumentavam três a cinco vezes o preço. E um dia chegou esse milagre chamado Amazon, a que se seguiu, recentemente o Book Depository. Não é imediato encontrar palavras para contar a habitação desse milagre. A busca era, e continua a ser, o melhor dos passos. Percorrer os campos, descobrir autores, identificar títulos, juntar oos objectos do desejo num cesto que é o nosso. Depois, a angústia da escolha. Eliminar, em nome da realidade financeira. E, terceiro passo, voltar ao mundo real português. A passagem a perito da distribuição postal nacional, especialmente desde que o último elo da cadeia, o carteiro, passou a recibo verde. Conhecer o circuito todo. Encomendar ao domingo para chegar à quarta-feira, evitar épocas festivas. Controlar o carteiro manhoso que não traz encomendas porque são pesadas, e o seu colega que mete o postal de aviso na caixa do correio, no lugar de tocar à campainha, porque ganha tempo. Ser amigo do boss do CDP ( Centro de Distribuição Postal) da área, para conseguir entrega imediata e segura. E, deste modo, matar a geografia, e o mercado nacional fechado. Os livros chegaram. O tremendo prazer de terem saído de um armazém no outro lado do mundo e estarem aqui agora nas minhas mãos. O primeiro contacto, o melhor. A capa, a contracapa, os agradecimentos, o índice, a bibliografia. A tomada de lugar na pilha. Não há muitos momentos como aquele em que os livros chegaram.

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