20091020

O olho longínquo de Hertzog

O silêncio mediático em torno de "O Olho de Hertzog", de João Paulo Borges Coelho, agora premiado com o Prémio Leya 2009 não tem qualquer defesa. Por uma coincidência fortuita, conheço a narrativa. É um belo exemplar do género histórico clássico: investigação extremamente sólida, não fosse o autor historiador de ofício, trama densamente enredada nos acontecimentos políticos e sociais da época (Moçambique, fim do século 19), linguagem cuidada e pesada ao milímetro, ritmo e acção construídos por método e não pelo mercado. Assim sendo, um acontecimento literário raro. No entanto, após o anúncio da atribuição do prémio, criado com informação obtida na cerimónia organizada pela Leya para o efeito, o silêncio. O facto, que é a realidade até ao momento, leva - nos a pensar em operações, circuitos e estatutos, ou seja na mecânica dominante de construção do mercado literário nacional. Em relação às primeiras, poderemos sempre dizer que a Leya foi um pouco amadora em não ter antecedido a divulgação do prémio de uma distribuição limitada e reservada do texto a um grupo relevante de críticos, como aliás é prática nos mercados profissionais. Mas são os segundos que nos devem, penso, captar mais a reflexão. De facto, a geografia continua a ser um peso pesado, mesmo por aqui. Borges Coelho, que conheci nas páginas do "Jornal de Letras" por volta de 1989, pertence a um circuito geográfico, relacional e afectivo que não se cruza com o da maioria dos profissionais do campo literário nacional, o que leva ao seu afastamento, ou, na melhor das hipóteses, a uma lentidão do encontro. Por outro lado, apesar de o seu suor e obra literária existirem há mais de 20 anos, não tem, por razões que seria curioso conhecer, o estatuto do seu patrício Mia Couto. Deste modo, acredito que há uma boa possibilidade de "O Olho de Hertzog" vir a ser para os portugueses continentais uma leitura remota no tempo e longínqua no espaço.

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