20100507

Decifrar Rodrigues

Decifrar a lógica dos dois actos do deputado Ricardo Rodrigues - o do furto dos gravadores e o da explicação pública dos seus motivos - obriga a procurar indicadores singulares. Na verdade, o primeiro indicador a seleccionar é o de que os actos são tão extraordinários que escapam à maior parte das referências racionais com que estamos habituados a lidar. Por outras palavras, poderão ficar para sempre sem explicação, tirando aquela que o autor dos actos construir para si e para o espaço público. O contexto é o de uma entrevista de uma revista semanal de informação, a "Sábado", cuja objectivo é confrontar o entrevistado com questões incómodas da sua vida pessoal e profissional. A entrevista é uma das secções simbólicas da revista, existindo há bastante tempo. A linha editorial da entrevista foi cumprida com Ricardo Rodrigues. O deputado reagiu mal, como acontece com a maior parte dos entrevistados neste formato, e terminou abruptamente a entrevista, levando consigo os gravadores dos jornalistas onde tinha sido gravado todo o conteúdo do acto. O único indicador racional que conseguimos isolar é o de que ao roubar os gravadores, o deputado tentou eliminar a entrevista. Tentou apagar definitivamente a conversa onde tinha participado. Tentou reescrever o passado imediato. É fascinante, sem dúvida. Mas é, para começar a enumerar as razões do acto ser impensável a partir de indicadores que conhecemos, impossível que o deputado tenha pensado deste modo, porque o mundo social a que pertence não o permite. Reescrever o passado e o presente, durante um período de tempo de média duração, é apenas possível num regime totalitário, onde o poder em exercício consegue realizar o controlo dos meios tecnológicos, da difusão da mensagem, do comportamento dos cidadãos, e de todos os "checks and balances", nomeadamente os que aplicam a Lei.  O deputado pertence à Assembleia da República, o sinal mais claro de que em Portugal existem um regime constitucional democrático. Deste modo, podem apenas ser levantadas duas hipóteses, ambas, novamente, a partir de indicadores anormais. Na primeira, o deputado, quando confrontado com uma situação limite, aquelas escassas onde verdadeiramente nos revelamos, mostra que não é capaz de lidar com condições básicas democráticas. Na segunda, o deputado mostra que se acha acima ou que é capaz de eliminar as condições básicas democráticas. O segundo acto, o da partilha pública das razões que levaram à execução do primeiro acto, obriga à procura de indicadores ainda mais singulares. Em verdade, qualquer que seja o rastilho pessoal do deputado que o levou a actuar, não há nada para partilhar, a não ser um pedido de desculpa e a confirmação pessoal de entrada num período de afastamento de funções públicas. O deputado preferiu construir uma justificação para o seu acto, fundamentada numa resposta emocional a uma violência psicológica intensa exercida pelos jornalistas. É extremamente difícil analisar este argumento, e qualquer indicador a que possamos recorrer é demasiado singular, de novo. A violência psicológica faz parte do quotidiano pessoal e especialmente profissional de todos nós, estando longe de nos garantir o direito de retaliar fora das regras. Assim, ao avançar com este argumento, o deputado parece mostrar que acredita que as suas razões podem ser acolhidas pelos cidadãos, ou que acredita que o caos em que está transformado o espaço público nacional é condição suficiente para que a mensagem que está a espalhar consiga eliminar ou atenuar o acto que cometeu. Qualquer destas hipóteses é verdadeiramente singular.

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