20091024

a leitura cirúrgica de J.G.Ballard

J.G. Ballard tem tudo para ser considerado um ficcionista menor. Os seus enredos narrativos são fragmentados, limitados e pouco coerentes, e as suas personagens são construídas a traço grosso, ficando por idealizações sem profundidade. Mas, pessoalmente, Ballard é dos autores que mais me acompanha e que, continuamente, sem razão aparente, me encaminha para questões e ideias para as quais não encontro destino. Levei algum tempo para conseguir entender este paradoxo pessoal. Numa ordem ascendente arbitrária, eis algumas causas não definitivas do problema. Ballard, como um número importante de ficcionistas ambiciosos, é um teórico deslocado. Tem aquela capacidade dominada por poucos de conseguir dobrar a linguagem ao serviço da teoria, isto é de numa frase de duas ou três linhas partilhar conceitos que iluminam de modo total actos ou pensamentos que temos mas não conseguimos racionalizar, e muito menos comunicar. Inúmeras vezes, por respeito à nobreza do objecto livro,me senti menos culpado por as minhas edições de Ballard serem "paperbacks" e a dobragem, por vezes múltipla, dos cantos das folhas, com o objectivo de no futuro manter a memória do lido, não ser, teoricamente, considerado um crime maior. A passagem, e recolha dos traços fundamentais, pelos recantos mais sombrios da mente humana, aqueles totalmente afastados do mal "mainstream" em que todos somos peritos, como os "serial - killers" ou os violadores, é outra importante marca ballardiana. Como "Crash" e "The Atrocity Exhibition", para invocar dois títulos, mostram, o ficcionista, que só por resignação à burocracia do mercado aceitava o ser incluído no género ficção científica, é dos poucos certificados a percorrer territórios que a nossa imaginação comum e moldada na mediania não consegue sequer conceber, e que são domínio inacessível de uns poucos que raramente circulam na  visibilidade pública. A leitura cirúrgica da realidade contemporânea, feita de modo incansável ao longo de décadas e sempre sem falhas, completa a fixação de Ballard no lugar dos fundamentais. Ballard realiza o processo com o recurso a duas operações, que se entrelaçam, a da extracção contextualizada dos traços decisivos, e a da sua passagem a um texto ficcional. Na primeira operação, Ballard consegue isolar os componentes estruturais de pedaços da sociedade contemporânea, que a maioria de nós comuns conhece e desconfia da importância, mas sobre os quais consegue obter informação apenas vaga, e conhecimento deficiente. É o texto de Ballard a fonte privilegiada que nos consegue fazer aceder aos mecanismos internos do império cultural global da televisão por cabo, do centro comercial e das claques de futebol ("Kingdom Come"), à cultura empresarial e aos seus espaços soberanos que a democracia não controla ("Super Cannes"), e ao mal indefinido e insignificante da classe média urbana ocidental cuja revolta é o espelho da sua mesquinhez ( "Millenium People"). Na segunda operação, o texto ficcional de Ballard, por sua vez, consegue transformar aquilo que nas páginas ou nos pensamentos produzidos por nós comuns são apenas observações empíricas, dados científicos frágeis e hipóteses teóricas em construção numa história cujo poder é o de nos dar conhecimento límpido sobre realidades contemporâneas complexas que nos moldam e determinam. Ter o texto Ballard é, assim, ter por perto um manual superior de ficção, mas também, para quem se envolve em trabalhos de ficção, a recordação contínua de um desafio crítico. O de conseguir aplicar o modelo Ballardiano a realidades específicas portuguesas. 

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