20100221
histórias reservadas
Na verdade, não é exagero escrever que há pelo menos uma boa história para contar por pessoa. Uma das mais extraordinárias descobertas de leccionar o curso "histórias de família" na Escrever Escrever é a provocada pelo calibre das histórias que cada um tem consigo, por vezes durante gerações. Nesta experiência, que acumula já vários cursos de dez horas, trazendo ao meu contacto várias dezenas de pessoas, é possível detectar duas ou três linhas mestras muito fortes. Uma primeira tem a ver com a exacta coincidência entre a história pessoal e a história de Portugal nas últimas décadas, especialmente com os acontecimentos marcantes, como são a vida em ditadura ou a guerra colonial. Uma segunda é alimentada pelas "questões invisíveis", como a luta das mulheres pela igualdade, as mães solteiras ou a infidelidade. Uma final é construída a partir de momentos marcantes ou familiares marcantes, por vezes com histórias verdadeiramente extraordinárias. O material conhecido ou investigado pelos alunos é luminoso e tanto pode ser usado para memórias ou histórias particulares, géneros tão escassos na edição portuguesa, como para base de partida para ficções com elevado potencial. Contribuir para conceber estas histórias, e para que os seus detentores as passem a texto, é um serviço que se paga a si próprio.
20100207
tentação de controlo e tipologias de influência
A publicação editada de algumas interceptações telefónicas realizadas pela Polícia Judiciária, sem que se conheça ainda a totalidade destas e o seu conteúdo integral, sobre um hipotético e não provado plano de tomada de controlo, desenhado por um núcleo de poder relacionado com o Primeiro - ministro em funções, de alguns órgãos de comunicação social, é um bom motivo para partilhar duas ou três hipóteses de análise relacionadas com o exercício do poder e da influência no nosso país. A primeira hipótese de análise está relacionada, como não poderia deixar de ser, com o exercício efectivo do poder judicial e de investigação criminal e o confronto destes com a limitação de informação pública imposta pelo segredo de justiça. Se outros casos semelhantes do passado recente não fossem suficientes, o que analisamos neste momento prova sem margem para dúvida que o segredo de justiça clama por reforma imediata. De facto, em boa verdade, a divulgação de um conteúdo limitado das interceptações telefónicas provoca um número considerável de problemas de extrema gravidade, que só poderão ser eliminados com a publicação integral do conteúdo com relevância pública de todas as escutas relacionadas com a investigação realizada. O primeiro problema é a suspeita fundamentada de que alguma entidade, colectiva ou individual, das que formam o núcleo restrito com acesso ao conteúdo das escutas e dos despachos do MP tenha decidido pela sua passagem ao público depois das instâncias judiciais superiores não lhes terem conferido valor, radicalizando assim um confronto de poderes constitucionais e internos, estes últimos dentro do edifício da Justiça, e uma tipologia de influência que são comuns no portugal democrático e que são fundamentados ideologicamente pela interpretação que alguns operadores judiciais concebem para as suas funções, e que não parece ser compatível com o princípio da lealdade que deve nortear o processo judicial. O segundo problema relaciona-se, claro, com o conteúdo revelado das interceptações. Este é conhecido depois de, pelo menos, uma dupla edição, a do operador judicial e a do jornalista, desligado do seu conteúdo integral, e do contexto em que é gravado. Assim, não é aceitável que a edição do conteúdo, que implica acima de tudo inclusão e exclusão de dados, e depende inteiramente da experiência, conhecimento e convicção dos editores, possa ser confundida, como é a partir do momento em que o conteúdo é publicado, com a verdade factual. O terceiro problema é que a passagem para o espaço público do conteúdo das interceptações transforma estas últimas naquilo que não são. Uma interceptação é uma ferramenta de investigação, no sentido em que permite obter em tempo útil dados que norteiam a descoberta de factos, quando muito um meio provisório ou auxiliar de prova, no sentido em que fornece diversos modos de obter dados decisivos, e raramente um meio de prova isolado ou definitivo. Transformar a natureza de uma interceptação, através da publicação do seu conteúdo, dando-lhe assim um carácter infalível e definitivo é incorrecto e perigoso para todos os envolvidos numa investigação criminal.
A segunda hipótese de análise tem directamente a ver com a tentação de controlo por parte do poder político, especialmente do poder executivo, das empresas de comunicação social. Não é intelectualmente honesto escrever, como alguns dos nosso principais comentadores têm feito nos últimos dias, que é original o hipotético desenho de operação que poderá ter sido executado por elementos da confiança do poder executivo em funções. Na verdade, a história democrática do nosso país desde 1974 é também uma história de permanente tentação e execução de controlo da comunicação social, realizada por todos os quadrantes políticos e alguns económicos. As tipologias para o conseguir são, quase sem excepção, as conhecidas, e os níveis de sucesso e insucesso nestes esforços são também de rápida recordação. Ao nível da propriedade, o financiamento directo ou indirecto, através de fundações, empresas ou bancos, nacionais e internacionais, do capital das empresas de comunicação social, bem como das respectivas receitas. Ao nível da hierarquia editorial, a cumplicidade, imposição ou colocação de chefias nos vários níveis das redacções. Ao nível do acesso, a sedução de jornalistas ou a negação de informações. Assim, deste modo, nasceram e morreram empresas de comunicação social, outras mudaram abruptamente de linha editorial, e, finalmente, outras mantiveram-se constantes porque o exercício da influência é de longa duração temporal e mais profissional. Do mesmo modo existe uma relação directa entre o exercício invisível da influência política na comunicação social e o ciclo "produtivo" do poder executivo, e a sua visibilidade súbita e crispada e o ciclo "problemático" deste último. O que poderá haver de novo na mais recente operação, que só poderá ser analisada quando todos os factos forem conhecidos, é alguma sofisticação conceptual, trazida pelo recurso velado a empresas com capital público e a actos de engenharia financeira, aparentemente anulada por um exercício primário de influência por parte dos condutores da referida operação. De qualquer modo, o que é de apontar mais uma vez é que os projectos de jornalismo em Portugal raramente conseguem escapar à asfixia de serem também projectos políticos, um cenário que apenas atormentaria um número apreciável de jornalistas, mas não a totalidade, não se desse o caso de a informação pública ser vital para uma democracia saudável e um controlo do exercício dos mais diversos poderes.
Uma linha de análise derradeira relaciona -se com a obsessão mediática por parte dos diversos poderes, mas especialmente do poder político, já que, porventura, é este que mais depende da opinião pública para a concretização dos seus objectivos. Neste ponto poderiam ser levantadas várias linhas de discussão, mas será talvez mais útil reduzir a análise apenas aquilo que poderemos chamar, à falta de melhor conceito, de círculo virtual. O que se observa repetidamente quando se passam alguns anos de contacto directo com os poderes constitucionais é o fechamento daqueles que ocupam as respectivas funções num círculo virtual fechado, criado pelos próprios, onde, basicamente, circulam apenas políticos, empresários, magistrados, jornalistas e, pontualmente, polícias. Uma mistura da incapacidade de lidar com os efeitos hipnóticos do controlo temporário do poder, uma tentação irresistível de estender a rede de influências e de a tornar dominante, e uma imaturidade intelectual que faz com se torne insuportável a realidade de que a democracia é um permanente confronto de "checks and balances", levam os membros deste círculo virtual a desenvolver obsessões, a conjurar cenários de conspiração e a desenvolver estratégias de eliminação que não pertencem e nada têm a ver com os interesses maioritários e decisivos da sociedade portuguesa. Na verdade, o mais importante de toda esta conjuntura é ser aparentemente nítido que o poder executivo considerou a questão mediática como prioritária na sua agenda.
A segunda hipótese de análise tem directamente a ver com a tentação de controlo por parte do poder político, especialmente do poder executivo, das empresas de comunicação social. Não é intelectualmente honesto escrever, como alguns dos nosso principais comentadores têm feito nos últimos dias, que é original o hipotético desenho de operação que poderá ter sido executado por elementos da confiança do poder executivo em funções. Na verdade, a história democrática do nosso país desde 1974 é também uma história de permanente tentação e execução de controlo da comunicação social, realizada por todos os quadrantes políticos e alguns económicos. As tipologias para o conseguir são, quase sem excepção, as conhecidas, e os níveis de sucesso e insucesso nestes esforços são também de rápida recordação. Ao nível da propriedade, o financiamento directo ou indirecto, através de fundações, empresas ou bancos, nacionais e internacionais, do capital das empresas de comunicação social, bem como das respectivas receitas. Ao nível da hierarquia editorial, a cumplicidade, imposição ou colocação de chefias nos vários níveis das redacções. Ao nível do acesso, a sedução de jornalistas ou a negação de informações. Assim, deste modo, nasceram e morreram empresas de comunicação social, outras mudaram abruptamente de linha editorial, e, finalmente, outras mantiveram-se constantes porque o exercício da influência é de longa duração temporal e mais profissional. Do mesmo modo existe uma relação directa entre o exercício invisível da influência política na comunicação social e o ciclo "produtivo" do poder executivo, e a sua visibilidade súbita e crispada e o ciclo "problemático" deste último. O que poderá haver de novo na mais recente operação, que só poderá ser analisada quando todos os factos forem conhecidos, é alguma sofisticação conceptual, trazida pelo recurso velado a empresas com capital público e a actos de engenharia financeira, aparentemente anulada por um exercício primário de influência por parte dos condutores da referida operação. De qualquer modo, o que é de apontar mais uma vez é que os projectos de jornalismo em Portugal raramente conseguem escapar à asfixia de serem também projectos políticos, um cenário que apenas atormentaria um número apreciável de jornalistas, mas não a totalidade, não se desse o caso de a informação pública ser vital para uma democracia saudável e um controlo do exercício dos mais diversos poderes.
Uma linha de análise derradeira relaciona -se com a obsessão mediática por parte dos diversos poderes, mas especialmente do poder político, já que, porventura, é este que mais depende da opinião pública para a concretização dos seus objectivos. Neste ponto poderiam ser levantadas várias linhas de discussão, mas será talvez mais útil reduzir a análise apenas aquilo que poderemos chamar, à falta de melhor conceito, de círculo virtual. O que se observa repetidamente quando se passam alguns anos de contacto directo com os poderes constitucionais é o fechamento daqueles que ocupam as respectivas funções num círculo virtual fechado, criado pelos próprios, onde, basicamente, circulam apenas políticos, empresários, magistrados, jornalistas e, pontualmente, polícias. Uma mistura da incapacidade de lidar com os efeitos hipnóticos do controlo temporário do poder, uma tentação irresistível de estender a rede de influências e de a tornar dominante, e uma imaturidade intelectual que faz com se torne insuportável a realidade de que a democracia é um permanente confronto de "checks and balances", levam os membros deste círculo virtual a desenvolver obsessões, a conjurar cenários de conspiração e a desenvolver estratégias de eliminação que não pertencem e nada têm a ver com os interesses maioritários e decisivos da sociedade portuguesa. Na verdade, o mais importante de toda esta conjuntura é ser aparentemente nítido que o poder executivo considerou a questão mediática como prioritária na sua agenda.
20100201
Risco intenso para o escritor português
Circulam cada vez mais intensamente informações e algumas análises estratégicas sobre o que espera os escritores nos próximos anos. O pano de fundo para tanta incerteza é, obviamente, a revolução tecnológica em curso capaz de virar do avesso todo o processo de produção, e que ganhou algum aceleramento com a chegada do Ipad, a maravilha da Apple de potencial ainda não confirmado. Na verdade, como ainda esta semana John Lanchester escreve no "Financial Times" "ninguém sabe como isto vai funcionar". Várias equações, com fórmulas para as resolver ainda desconhecidas, estão a ser lançadas para as mesas dos envolvidos em todo o mundo, sendo que uma das mais importantes, e a única que tratamos neste texto, é a do cálculo das consequências da passagem do texto a produto digital. A equação poderá ser enunciada do seguinte modo: os leitores adoptam massivamente o texto em formato digital. Aplicando a mesma tendência cultural já estabilizada na música e no cinema, defendem que o produto deve ser gratuito. Aceitando estas duas variáveis como assentes e dominantes do mercado num futuro próximo, é necessário tentar desenhar as hipotéticas linhas mestras da revolução. Começando pelo fim da cadeia, uma extinção ou completa reinvenção das livrarias. No coração do processo de produção, uma diminuição radical do papel das gráficas e das distribuidoras. No centro da cadeia, uma desvalorização das editoras, e uma queda brutal das suas receitas, dando possivelmente origem a micro - empresas especializadas em serviços técnicos, como a detecção de novos talentos, a revisão e publicação nos vários formatos digitais dos textos, ou a "boutiques" com selo de qualidade, criado pelo valor no mercado dos autores que representam. Para o escritor, o cenário do futuro imediato parece ser ainda mais indistinto. À partida, com a eliminação do valor retido pela editora e pela distribuidora, poderá ver a sua margem de receita, que vai hoje dos 10 aos 36 por cento, chegar facilmente a números entre os 70 a 80 por cento. O problema é o de que estará completamente dependente do mercado, isto é do seu sucesso junto dos leitores. Neste ponto, é curioso notar algumas experiências, como os espectáculos em "tour" organizados por Malcolm Gladwell ou Lawrence Wright, que de algum modo tentam replicar o circuito dos concertos das bandas musicais, ou as campanhas de PR à volta de Dan Brown. Na verdade, para o escritor, as questões chave são duas. Se o texto for gratuito, como ganhar dinheiro com ele? E se o mercado ditar o texto, como fará um escritor que tem uma história para escrever, sabendo que esta não será acolhida pelo mainstream? Só pensar nas variáveis da equação é suficiente para perceber que dificilmente escaparemos à revolução num tempo muito próximo. O texto será cada vez mais um produto que será imposto ao mercado. Algumas intensas polémicas surgirão sobre as instâncias de validação que irão surgir para garantir a qualidade do texto ficcional, e o seu apoio através de algum tipo de mecenato. Num mercado pequeno, acorrentado e onde não se assumem as identidades da ficção como é o nosso, a incerteza será ainda mais acentuada, e o risco será muito intenso.
20100117
o elo e o trabalho ficcional com referências
O elo em Avatar, o filme de Cameron, é desde já uma das maiores criações ficcionais de sempre, e a sua matéria permite arriscar dizer que o será também para sempre. O elo, que explique -se aos que ainda não viram o filme é a ponta da cauda dos membros do povo Na´vi, que lhes permite uma união física e espiritual com os animais e as plantas, tem um poder simbólico duplo. É ao mesmo tempo uma aplicação feliz em matéria do desejo do homem comunicar e estar em união com a natureza e a espiritualidade, e, simultaneamente, um novo membro orgânico que permite visualizar até onde o homem pode ir, utilizando a bioengenharia e a biologia sintética na manipulação do seu dna, para ganhar novas capacidades que o construam como melhor ser. O elo, sendo a plataforma que permite o fluxo espiritual e ecológico, mas sendo matéria que pode ser observada, transforma - se assim num poderoso objecto que dificilmente sairá da memória dos que o viram, e que virá certamente a ser invocado no futuro de mil e uma maneiras. Mas o elo é apenas a criação ficcional chave de um filme que recupera e manipula, com o atrevimento próprio de que só um mestre de Hollywood é capaz, um número considerável de referências a que muito poucos são insensíveis, dado que fazem parte daquilo que observam na sua contemporaniedade ou do seu património vindo da juventude. Neste campo, um exercício interessante a fazer é o de conseguir saber se Cameron e a sua equipa trabalharam com as referências com o objectivo de criar um objecto novo, no sentido de levar essas referências para a construção de uma história radicalmente original, ou se apenas as utilizaram como património universal que sabem que é com o objectivo de garantir o sucesso do seu produto. Esta é, claro, uma questão para a qual não temos resposta. Podemos, no entanto, ter uma avaliação pessoal da eficácia do trabalho com referências. Porventura, a maior desilusão é o trabalho em torno do ser digital que dá o nome ao filme, ou seja o Avatar. Na verdade, Cameron encontra um modo de fazer a ligação entre ser humano e a sua réplica digital, mas o modo como o faz, através de uma câmara que consegue transportar a matéria e o imaterial de um corpo para outro, faz lembrar demasiado a criogenia e a ficção científica dos anos 70. Para mais, neste ponto, a utilização escassa de cenários e paisagens digitais é também um reforço da desilusão. Já noutra dimensão do trabalho com referências, o contexto civilizacional do povo Na´vi é seguro, mas também limitado. Cameron, em algumas entrevistas, fala de que partiu das velhas ficções de Rice Burroughs na selva africana e de "danças com lobos", o épico de Costner, mas, na verdade, na cultura e no comportamento dos Na´vi apenas consigo ver os índios mitológicos norte - americanos, como os apache, a que é dado um toque espiritual africano, nas grandes cerimónias colectivas de invocação do poder da natureza. Aqui faltou a Cameron um toque de genialidade: a construção efectiva de um Outro, de uma nova identidade que pudesse ser observada. Porventura, a maior desilusão é o emprego de referências para a construção do conflito. Três aspectos devem ser aqui mencionados. A chamada ao argumento da obtenção de minérios raros é interessante, mas Avatar não mostra o horrendo do trabalho nas minas, de que a realidade que todos os dias se observa na República Democrática do Congo é um exemplo. As cenas de batalha são primárias e estereotipadas, e este teria sido um campo onde valeria a pena investir, já que o modo de fazer a guerra mudou tremendamente nas últimas décadas. Mas, sem dúvida, o maior desencanto é com a escolha e visualização da tecnologia bélica contemporânea. Cameron está absolutamente certo em trazer para a filmagem a robótica e o emprego da tecnologia e da máquina no campo de batalha, em lugar do homem, mas as armas que apresenta são rudimentares e quase primitivas, quando abundam, na literatura técnica e ficcional, especialmente nos videojogos, exemplos muito interessantes de novas ferramentas de guerra. Apesar de todo este emprego deficiente das referências escolhidas, na minha opinião, Avatar é um filme extraordinário, que me tocou de um modo imenso. Porquê? Creio que as razões são perfeitamente lineares. Mesmo para um ser pouco espiritual como eu, a linha condutora simbólica da história, a mensagem espiritual e ecológica, é muito forte. Mas o factor decisivo, o que realmente é tocante, é a extrema beleza visual de todo o filme. Neste ponto, antes dos mais, Cameron provou que as novas ferramentas tecnológicas de imagem e edição permitem fazer um cinema novo. Mas, o mais importante é que a contratação de uma bióloga para criar o ecossistema de Pandora foi a melhor decisão do realizador. Toda a estrela, toda a sua paisagem e flora, e todo o povo que a habita, são imensamente belos, e a esse efeito encantador é impossível escapar.
20100111
impossibilidade de protecção
"A Estrada", escrito por Cormac McCarthy em 2006, e um filme agora estreado em território nacional, tem por tema uma angústia sempre secreta, pessoal e devastadora, aquela que um pai traz em si a partir do momento em que sente que a qualquer momento pode deixar de conseguir proteger o seu filho. Não será arriscado escrever que o quotidiano de Mccarthy contribuiu bastante para a escrita desta história. O autor americano tem, apesar da sua idade avançada, um filho criança. Por outro lado, o cenário de um mundo pós - apocalipse, onde se desenrola a narrativa, é um dos mais debatidos no meio científico onde o escritor está inserido, o do Santa Fé Institute. Mas, na verdade, o que o livro conta é a dor trazida pela descoberta da impossibilidade de proteger um filho ainda indefeso, e a tentativa desesperada de eliminar esta certeza. Perder um filho ou ver sofrer um filho, conta - nos a realidade e a ficção demasiadas vezes, é uma experiência que destrói tudo, até a tentativa de a contar. Um pai enfrentar a sua partida com o filho ao lado é uma experiência distinta, onde existem, pelo menos, dois pontos insuportáveis. O primeiro tem a ver com a descoberta, feita num quotidiano onde a todo o momento se encontram os olhos da criança. O segundo tem a ver com o tempo, já que se o desaparecimento não é imediato, todos os dias começa um novo dia onde se sabe que num dia próximo o filho vai ficar sozinho e indefeso. Transformar este medo e este desespero numa narrativa que pode ser partilhada é uma tarefa quase impossível, daí "A Estrada" ser um livro maior.
20091223
a vacina não é só uma opção individual
Existem duas razões poderosas para tomar uma vacina, especialmente quando está em causa uma pandemia provocada por um vírus de fácil disseminação, como é o da gripe A. A primeira é bastante simples: a vacina garante uma taxa alta, mas não absoluta, de protecção ao vacinado. A segunda é mais complexa, e, no actual contexto português, tem sido sistematicamente ignorada, especialmente por grupos de referência, como são os enfermeiros e médicos: tomar a vacina é um acto de profundo civismo comunitário, já que corta a pandemia num ponto individual da cadeia de infecção. No que concerne o primeiro argumento para tomar a vacina, há que tentar separar a evidência científica existente, que não pode ser tomada como definitiva, e o ruído argumentativo sem sustentação científica.
O material científico produzido até agora, pelas próprias farmacêuticas, mas também por organismos científicos independentes, de controlo e de investigação, mostra que a vacina é a única protecção eficaz contra o vírus. Mostra igualmente que não foram identificados ainda efeitos secundários que representem um risco presente ou futuro para a saúde de quem se vacina. O "ainda" é muito importante, já que na medicina, como em qualquer área científica, a investigação é permanente, fazendo com que os paradigmas de hoje sejam destruídos amanhã.
Apesar de todo este material sólido, que deve ser constituído como matéria importante de apoio a uma decisão, o fenómeno, que é global, dos "cidadãos e pais anti - vacina", tem um peso enorme, não só em relação a esta vacina, como no que concerne a maior parte delas. O movimento, extremamente organizado em muitas paragens, como os EUA, suporta - se numa série de argumentos, da crença que as vacinas provocam doenças, totalmente refutada pelos vários estudos científicos, à convicção de que o objectivo é o lucro das farmacêuticas, quando a vacina é o produto menos rentável do seu catálogo, até à aplicação de uma ideologia, por exemplo anti - capitalista, ao objecto "vacina". E, claro, basta uma pequena sondagem junto do meio privado de cada um para encontrar argumentos como os seguintes: "os meus filhos são saudáveis, não precisam", "a vacina não protege nada", "o médico acha que não é fundamental".
O efeito deste argumentário numa comunidade, quando é aceite por um grupo considerável de cidadãos, é devastador. Um artigo recente na Wired (An Epidemic of Fear, Amy Wallace, Outubro de 2009) é uma boa introdução ao que está em causa. O principal facto a reter é que sempre que uma vacina não é tomada, a protecção desaparece, permitindo, entre outras consequências, o regresso massivo de vírus dominados durante décadas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o retorno da rubéola em algumas regiões americanas.
A reflexão em torno do segundo argumento para tomar a vacina devia ser profunda, mas, especialmente em Portugal, é totalmente ignorada. Um artigo científico publicado em 2002 no "The Journal of Infectious Diseases", que teve como grupo de pesquisa 3292 pessoas que contraíram rubéola na Holanda, é cristalino. A principal conclusão é que é mais BAIXA a probabilidade de uma pessoa não - vacinada contrair o vírus numa comunidade vacinada, do que a possibilidade de o mesmo lhe acontecer quando está vacinada mas circula numa comunidade não vacinada. A evidência parece definitiva no ponto em que não tomar a vacina significa que quem não o faz está a colocar em perigo toda a comunidade com que se relaciona. Assim, o acto de vacinação é também uma acção cívica e comunitária.
Deste modo, no actual contexto português, devemos sublinhar várias perplexidades, das quais destaco apenas algumas. Antes do mais, porque é que as entidades públicas não proporcionam informação mais personalizada e rigorosa aos cidadãos, que lhes sirvam de apoio à decisão. Segundo, como é que médicos e enfermeiros podem recusar a vacina, e tornar essa decisão pública, sem que sejam alvo de um inquérito pessoal por parte das suas tutelas. Terceiro, como é que médicos de família e pediatras, decisivos na influência que possuem junto dos seus pacientes, aconselham a não tomada de vacina, sem que tenham de fundamentar oficial e formalmente a sua opção. Quarto, como é que os indivíduos de vários grupos profissionais, com contacto directo permanente com vários níveis de população, podem tomar sozinhos, em nome da liberdade individual, uma decisão que não os afecta só a eles.
O material científico produzido até agora, pelas próprias farmacêuticas, mas também por organismos científicos independentes, de controlo e de investigação, mostra que a vacina é a única protecção eficaz contra o vírus. Mostra igualmente que não foram identificados ainda efeitos secundários que representem um risco presente ou futuro para a saúde de quem se vacina. O "ainda" é muito importante, já que na medicina, como em qualquer área científica, a investigação é permanente, fazendo com que os paradigmas de hoje sejam destruídos amanhã.
Apesar de todo este material sólido, que deve ser constituído como matéria importante de apoio a uma decisão, o fenómeno, que é global, dos "cidadãos e pais anti - vacina", tem um peso enorme, não só em relação a esta vacina, como no que concerne a maior parte delas. O movimento, extremamente organizado em muitas paragens, como os EUA, suporta - se numa série de argumentos, da crença que as vacinas provocam doenças, totalmente refutada pelos vários estudos científicos, à convicção de que o objectivo é o lucro das farmacêuticas, quando a vacina é o produto menos rentável do seu catálogo, até à aplicação de uma ideologia, por exemplo anti - capitalista, ao objecto "vacina". E, claro, basta uma pequena sondagem junto do meio privado de cada um para encontrar argumentos como os seguintes: "os meus filhos são saudáveis, não precisam", "a vacina não protege nada", "o médico acha que não é fundamental".
O efeito deste argumentário numa comunidade, quando é aceite por um grupo considerável de cidadãos, é devastador. Um artigo recente na Wired (An Epidemic of Fear, Amy Wallace, Outubro de 2009) é uma boa introdução ao que está em causa. O principal facto a reter é que sempre que uma vacina não é tomada, a protecção desaparece, permitindo, entre outras consequências, o regresso massivo de vírus dominados durante décadas. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o retorno da rubéola em algumas regiões americanas.
A reflexão em torno do segundo argumento para tomar a vacina devia ser profunda, mas, especialmente em Portugal, é totalmente ignorada. Um artigo científico publicado em 2002 no "The Journal of Infectious Diseases", que teve como grupo de pesquisa 3292 pessoas que contraíram rubéola na Holanda, é cristalino. A principal conclusão é que é mais BAIXA a probabilidade de uma pessoa não - vacinada contrair o vírus numa comunidade vacinada, do que a possibilidade de o mesmo lhe acontecer quando está vacinada mas circula numa comunidade não vacinada. A evidência parece definitiva no ponto em que não tomar a vacina significa que quem não o faz está a colocar em perigo toda a comunidade com que se relaciona. Assim, o acto de vacinação é também uma acção cívica e comunitária.
Deste modo, no actual contexto português, devemos sublinhar várias perplexidades, das quais destaco apenas algumas. Antes do mais, porque é que as entidades públicas não proporcionam informação mais personalizada e rigorosa aos cidadãos, que lhes sirvam de apoio à decisão. Segundo, como é que médicos e enfermeiros podem recusar a vacina, e tornar essa decisão pública, sem que sejam alvo de um inquérito pessoal por parte das suas tutelas. Terceiro, como é que médicos de família e pediatras, decisivos na influência que possuem junto dos seus pacientes, aconselham a não tomada de vacina, sem que tenham de fundamentar oficial e formalmente a sua opção. Quarto, como é que os indivíduos de vários grupos profissionais, com contacto directo permanente com vários níveis de população, podem tomar sozinhos, em nome da liberdade individual, uma decisão que não os afecta só a eles.
20091215
aventureiros desconhecidos
Há homens que partem em silêncio apesar de terem realizado feitos gloriosos. Francisco Frias de Barros, engenheiro geógrafo, faleceu recentemente, e em total silêncio mediático. O mesmo silêncio que o encerrou a ele e aos seus camaradas de ofício, apesar de terem sido a última geração da grande aventura terrestre africana. Na verdade, é um pouco absurdo ver os americanos a reproduzirem em Hollywood os fantásticos feitos de Mason, Dixon, Burton, Stanley e Livingstone, com o apoio sempre discreto da Coroa inglesa, quando por cá um punhado de bravos fez o mesmo e muito mais a partir do século, como testemunha, detalhadamente, "Viagens de exploração terrestre dos portugueses em África", de Maria Manuela Madeira Santos, uma pérola sequestrada nas prateleiras dos alfarrabistas. Foi um pouco atrás da reconstrução desta aventura que há uns anos fui incomodar Frias de Barros, num gabinete silencioso esquecido em Belém. Foram uns dias bem passados, já que facilmente fui contaminado por aquela história. Apesar da sua idade, Frias de Barros tinha uma boa memória, e uma compreensão fácil para a partilha do detalhe que uma boa história exige. E, por outro lado, o gabinete e salas adjacentes guardavam todo o material da aventura, inclusive as notas de campo, o que é uma espécie de tesouro. A epopeia destes homens é na essência simples: andaram nas latitudes desconhecidas de Angola e Moçambique a retirar coordenadas para o império ter um mapa do seu território. Fizeram - no e isso é extraordinário.
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