20121116

Sobre o conhecimento da revolta e da ordem

Infelizmente, dois dias depois do primeiro acto de reacção policial a uma radicalização do protesto civico, continuamos sem ter conhecimento de alguns dados essenciais para podermos dominar e decidir o que está em causa. Do acontecimento de quarta-feira, e das suas ramificações anteriores e principalmente posteriores, podemos isolar, pelo menos, três dimensões importantes: a materialização pontual da revolta radical, o exercício da autoridade e da restauração da ordem, e o conhecimento conseguido pelos profissionais jornalistas. Está em causa também uma quarta dimensão, o grau de maturidade dos portugueses em relação ao que neste texto se discute, que tentaremos também abordar. As notas que se seguem procuram recortar algum conhecimento sobre estas quatro dimensões.
A questão fundamental a que os manifestantes radicais têm de responder é qual é o seu ideário e a sua prática. Na verdade, está há já muito tempo ultrapassado o limite de tempo que lhes permitia uma indefinição entre o oportunismo espacial e mediático para acções radicais espontâneas, as manifestações, e a sua completa inexistência. O que está em causa é a revelação da sua identidade ideológica e da sua praxis. Assim, o que todos pretendemos saber é se são apenas vários conjuntos atomizados de membros vagos de ideologias e de organizações em rede, que vão do Black Bok aos estivadores com lideranças em claques de futebol, ou se conseguiram erguer uma estrutura, ou estruturas, com fundamento ideológico e um plano estruturado. Deste modo, obviamente, queremos saber se pelo menos têm uma racionalidade, por mais condenável que esta seja, ou se neles tudo começa e se esgota na expressão pontual de violência gratuíta. Neste campo, queremos também perceber o que pensa a esquerda parlamentar e sindical sobre os protagonistas desta via radical. Na verdade, se atentarmos na entrevista que Francisco Louçã deu há três semanas na Visão, ou na entrevista que Manuel Carvalho da Silva deu ao Jornal de Negócios no passado dia 9, entre outros testemunhos, vemos que existe uma tentativa de construção de pontes. Esta revelação de identidade é fundamental para todos entendermos, a começar nos instrumentos do Estado e a acabar no vulgar cidadão,  se estamos perante criminosos de delito comum, ou executores de subversão e terrorismo, tal como estes estão tipificados na legislação portuguesa. 
Os autores do exercício da autoridade e da ordem, de entre os quais salientamos o Governo e as polícias, estão encarcerados no segredo e no amadorismo mediático. O primeiro ponto a reter, na questão do segredo, é que por motivos inexplicáveis não partilham o facto de que o Governo impôs um principio estratégico de risco, o de desde 15 de Setembro ter transmitido aos corpos de polícia a ordem de não impedir a violação da ordem pública, em nome do não aumento do clima de desespero e revolta social. O risco desta estratégia, que é estudado há muito nas academias de polícia e no meio académico, materializou-se, já que, em dois meses, os manifestantes radicais foram assumindo a mensagem de que a polícia não iria nunca reagir. Agora, ultrapassada a estreita linha vermelha, a tendência é que à acção violenta do corpo da ordem, os radicais respondam com maior, mais impresvísivel e mais atomizada radicalização.
O segredo dos constitucionalmente detentores do exercício da autoridade e da ordem estende-se à não partilha pública dos dados que possuem sobre o fenómeno. Existem várias perguntas a que têm de responder. A primeira é a de sabermos se SIS, PJ e a Unidade de Informações da PSP fizeram ou não o seu trabalho, e se possuem ou não informação relevante sobre os protagonistas da revolta radical. O que está em causa, primeiro, é percebermos a razão pela qual o exercício de isolamento de alguns elementos radicais foi feito apenas durante a manifestação, e não antes, como é realizado em todo o Ocidente, em fenómenos com esta tipologia. O que está também em causa, em segundo lugar, é mais uma vez sabermos se estamos perante estruturas, ou perante uma revolta inorgânica, atomizada e pontual. Se o cenário for este último, então a carga e acção de detenção generalizada que se seguiu policiais têm um fundamento, que deve ser comunicado publicamente.
A acrescentar ao acima anotado, está o problema do amadorismo mediático do Governo e da PSP. Antes de tudo o mais, adoptam uma táctica reactiva, isto é comentam depois do acontecimento. Depois, fazem-no com soundbytes abstractos. Classificar, como o fez o Primeiro-ministro e o Ministro da Administração Interna, de adequada e proporcional a carga e a acção de busca e detenção, é perder desde logo o controlo da mensagem.
A única estratégia possível do Governo é, antes do mais, perceber que está envolvido num problema que não conseguirá resolver. Por razões culturais e emocionais, a maioria dos cidadãos estará sempre contra o exercício da violência por parte da polícia. No entanto, este cenário não limita a execução de uma táctica activa. Esta passa, prioridade um, como já foi referido, pela divulgação dos dados que possui sobre os manifestantes radicais. É o conhecimento que permite o julgamento de cada cidadão. Mas passa também, prioridade paralela à primeira, pela passagem de conhecimento aos jornalistas do essencial sobre a teoria e a prática de corpos especiais como são o CI da PSP e o GIOP da GNR. Muito há a transmitir neste campo, porque são corpos com uma missão extremamente complexa, mas neste espaço gostaríamos de salientar apenas que aquilo que ao cidadão sem conhecimento parece impressionante, o contacto violento com manifestantes sem discriminação de idade ou sexo, ou a perseguição aparentemente aleatória, são, efectivamente, tácticas planeadas e as únicas possíveis para restaurar a ordem e garantir a segurança de todos, principalmente daqueles que executam a missão. Por exemplo, uma secção do CI que neutraliza um quadrante não pode ignorar uma mulher, porque esta poderá lançar um cocktail molotov nas suas costas.
A terceira dimensão que pretendemos abordar neste texto sumário é a do conhecimento conseguido pelos jornalistas. Da análise do publicado, podemos detectar dois problemas maiores, o da cumplicidade e o da negligência. Quanto ao primeiro, não é aceitável que um jornalista trabalhe sobre um fenómeno, e, simultaneamente, revele as suas opções ideológicas, morais e de cidadania numa rede social. O profissional antes de ser jornalista é cidadão, e se está perante um fenómeno onde sabe que os seu valores vão influenciar o seu trabalho, deve revelar objecção de consciência e recusar o trabalho.
O segundo problema é ainda mais grave, e, neste campo, os jornalistas caminham lado a lado com o governo e a polícia, ou seja, são meros espectadores reactivos, limitando-se a coleccionar e a reproduzir momentos impressionistas. São meras testemunhas sem acesso aos níveis reservados, e não procuram sequer adquirir conhecimento sobre os vários contextos existentes. É já muito tarde, mas existe ainda uma janela temporal, para recuperarem o tempo perdido, e procurarem executar a sua missão. Antes do mais, devem planear o seu esforço de investigação, onde tudo assenta, e dividirem o fenómeno nas suas várias dimensões, para, pelo menos, ganharem conhecimento sobre uma delas. Não é assim tão dificil, se forem profissionais. Sobre uma das dimensões principais, a do exercício da ordem, consegue-se acesso através da insistência. Sobre a outra, os manifestantes radicais, consegue-se acesso, na maior parte dos casos, através da exploração das redes pessoais, já que aqueles pertencem à sua geração, ao seu meio social e cultural, e aos seus circuitos.
No meio de toda esta complexa questão, está o nosso grau de maturidade em relação à fractura das habituais normas e regras de comportamento social e público, como são os actos radicais de revolta. Impressionaram-me, na análise dos comentários nos OCS e nas redes sociais de cidadãos comuns e dos cidadãos com notoriedade profissional e social, duas questões. A primeira é a total inocência, como a expressa por alguns de que não contavam ser agredidos, ou viram em perigo entes queridos. Há todo um acumular de conhecimento de senso comum em sociedades habituadas à violência social que parece não existir em Portugal. É preciso ter a absoluta noção de que estar numa zona de conflito implica um risco e um perigo que se pode materializar. Mas o que me impressiona mais é a contínua e indignada reinvidicação de imunidade. Cada cidadão, e cada militante, decide em sua própria consciência qual é o seu lugar na sociedade e na revolta. É este um dos milagres da democracia. Mas a democracia tem fronteiras fixadas por todos, as leis e normas aprovadas, e cada um tem de saber lidar com o facto de que os seus actos têm consequências. Por outras palavras, não é aceitável estar presente ou actuar e não querer pagar o preço.
O cenário nacional para os próximos meses é de tensão e conflito. Todos o sabemos e sentimos. Não há nada que alguém possa fazer para eliminar esta instalação mental e social. No entanto, há todo um enorme trabalho a fazer por aqueles que querem ou têm de estar na linha da frente. O primeiro passo desse trabalho é ter a plena consciência do que é gerado por cada acto pensado e praticado. O segundo passo é o de que executores da autoridade e da ordem, manifestantes radicais e jornalistas percebam que a obtenção e partilha de conheicmento contribui decisivamente para a cidadania e segurança de cada e de todos os cidadãos. 


 

20120906

Nadine revela a escuridão

O novo romance the Nadine Gordimer, No time like the present, recentemente editado, ainda sem versão portuguesa, é sombrio. A escuridão revelada pela trama não podia ser mais cruel para aqueles a quem África toca, a de que as sociedades africanas contemporâneas são incapazes de funcionar.
Nadine tece uma estrutura narrativa particularmente sólida, assente num casal misto, ele judeu branco sul africano, ela zulu, que participou na "luta", ou seja na guerra armada contra o apartheid, e está agora inserido na classe média do país do arco-íris. A estrutura de Nadine não está submetida a um objectivo de virtuosismo ficcional, como é o caso de "Disgrace" de Coetzee. Pelo contrário, Steven e Jabu, o casal, servem apenas de eixo para a acomodação do que é hoje a áfrica do sul, permitindo uma longa digressão da autora por aqueles que considera os sinais mais fortes de que o país está em agonia. A questão central é, sem dúvida, a de que a nova sociedade multi racial justa e funcional prometida pelo ANC, e pela qual os seus militantes lutaram e morreram, é um sonho adiado, e que possivelmente nunca será concretizado. A partir daqui, Nadine usa a narrativa para rodar os sinais. Surgem primeiro os mediáticos, como a asfixia permanente causada pela insegurança, e depois os mais ocultos, entre eles a incapacidade de tirar os cidadãos da pobreza, o falhanço das medidas de promoção empresarial e educativa dos negros, que só leva a que sejam admitidos nas universidades e empresas pessoas sem qualificação para tal, e a xenofobia, causada pelo desemprego, que desencadeia os ataques sistemáticos aos zims, cidadãos do Zimbabwe, moçambicanos e congoleses.  Todos os sinais assentam no cenário da incapacidade e da corrupção moral e efectiva do ANC, personificada em Zuma, o actual presidente. Mandela quase não existe na narrativa. Steven e Jabu acabam por encarar que a única saída é a emigração, ou seja o abandono de uma vida dedicada.
Duas ideias ficam-me com a leitura. A primeira é a de mais uma revelação de que as sociedades africanas contemporâneas continuam a não mostrar uma capacidade de serem funcionais. O patamar procurado nem é o da democracia sequer, mas o da segurança dado pela existência de poderes efectivos, que assegurem uma regulação e uma confiança mínimas. Não trazendo sequer a página o que se passa no Zimbabwe e no Congo, pense-se a partir destas últimas eleições angolanas, ou dos relatos de Noo Saro Wiva sobre a Nigéria.  
A segunda ideia tem a ver com a nossa ficção em língua portuguesa. Continuamos a não ter ficcionistas que juntem o rigor da escola realista com a ambição de contar a contemporaniedade. Ou seja, não temos acesso ao que se passa hoje nos lugares mais importantes dos países africanos que falam português.

20120526

o esquecimento


Não há dia em que uma pergunta básica não esteja na minha cabeça. Porque razão não publicamos, salvo escassas excepções, livros bonitos em Portugal? Uma das razões que me levou, ainda miúdo, a gastar fortunas, na era pré-internet, em edições inglesas, foi a de que, geralmente, os livros são muito bonitos. O que torna estes livros tão bonitos? A estética e a dignidade. A estética abrange, antes do mais, o elevado design gráfico do "dust cover" e a escolha cuidadosa da fonte tipográfica. A diginidade implica a escolha dos melhores papéis, a enumeração de todos os profissionais envolvidos e da editora, e a menção da edição. Quem não tem orgulho em ter na estante uma "first printing, first edition"? Assim, temos um objecto que cativa ainda antes do texto, e que traz orgulho a quem o expõe e partilha. O mesmo não se passa por aqui. Tenho de facto uma tristeza enorme em olhar para as edições portuguesas de mestres da escrita, como Borges e Calvino, e ver as pobres edições em que foram acantonados. E o que pensará um autor maior nacional, como Lobo Antunes, quando olha para os seus livros?
Será fácil dizer que as más edições nacionais se explicam por razões financeiras, sendo óbvio que muito da questão passa por aí. Mas o ponto fundamental é a incapacidade da recusa, ou seja a fronteira ética. Os editores aceitam, ou resignam-se, a publicar livros feios e os leitores aceitam comprá-los. É uma menorização ética e cultural de todos nós absolutamente trágica.

20111213

As outras histórias

Todos os dias trabalho com texto. Ficção, não-ficção, próprio, de outros, estruturando, criando, editando, por iniciativa própria ou por contrato. E, no entanto, parece-me sempre que nunca consigo criar o texto que está sempre comigo, que me perturba. Parece-me também que existem duas barreiras que contribuem para o referido efeito. A primeira é a de que não consigo encontrar as palavras que traduzam o que me acossa. A segunda, sendo eu um burocrata, é que não consigo desenhar o formato adequado. Um dos textos que me persegue desde sempre, e que se desdobra em múltiplos textos, tem a ver com as outras histórias. Acho que o projecto nasceu com as cidades invisíveis de calvino, lido há mais de duas décadas. Em essência, tem a ver com reportar e reproduzir em texto os imaginários riquissimos a que normalmente não temos acesso. Por exemplo, como será hoje viver em Detroit. Mas também como persistir na manufactura de ferramentas. Ou, ao lado, como será o mundo dos que já pertencem aos nós digitais. Por outras palavras, convocar todos os mundos que escapam um pouco ao interior das nossas fronteiras limitadas. Pensava nisto, mais uma vez, hoje de manhã. E eis que a minha amiga Cândida alerta para um maravilhoso texto de Henning Mankel, "In africa, the art of listening", publicado no New York Times. O texto fala da experiência de viver aquilo que eu idealizo. É uma espantosa coincidência. Tenho de lhe prestar atenção.

20111123

uma solidão com lâminas

Há interesses maiores naturalmente secretos. Por outras palavras, a natureza dos interesses choca com a cultura assente, e quando assim é, a via prudente é a amputação da partilha. Dos meus, o mais sufocado é a paixão por lâminas. Como todos os interesses pessoais maiores, não há propriamente uma identificação clara da origem. Mas entre infâncias no mato, histórias de guerreiros e noites de escuteiros, alguma marca terá sido fixada com profundidade. O percurso da paixão começou pelas más lâminas existentes em portugal, nesses tempos afastados dos anos 80 do século passado. Canivetes de cabo de plástico vermelho, e facas de mato de série. A sedução foi-se mantendo pelo tempo, o que levou a expedições periódicas frustrantes às antigas tabacarias de Lisboa e arredores. Mas, na verdade, o desejo só encontrou objecto à altura quando chegaram os primeiros Leatherman, comprados na primeira versão da Econauta, ou trazidos de paragens europeias, quando nos aviões era permitido transportá-los nos bolsos das calças. Um bom tempo. Os primeiros Leatherman fascinavam pela complexidade do engenho, e pela beleza estética do objecto. No meu caso, são estas as características que fixam e perduram a paixão. Antes do mais, a capacidade do artesão, o seu labor e genialidade. Depois, a beleza material da lâmina. Certamente que o conforto da segurança de ter uma arma, e aquela confusão de sentimentos sempre classificada como "rapazes serão sempre rapazes", terão também o seu peso de influência. Enfim,embora desconfie que estas são propostas teóricas algo limitadas, já que a minha avó aos 80 anos andava sempre com uma lãmina no bolso. A partir da idade adulta, o cenário não sofreu grandes modificações. A Leatherman foi evoluíndo de modo fantástico, e complexizando os seus modelos, graças ao design e fabrico com ferramentas informatizadas. Há até alguns momentos traumatizantes, como a confiscação, em Heathrow, do modelo Wave, na altura o topo da Leatherman, comprado em Darwin, em 1999, para comemorar a evacuação de Timor. No entanto, esta relação de intimidade com a Leatherman teve sempre um ponto fraco. As lâminas são perfeitas, atraentes, eficazes, mas têm aquela impressão do produto americano, aquela exactidão de série de linha de montagem da Ford que as torna demasiado mecânicas. Mas, realmente, os dois problemas, nestas últimas décadas, foram a incapacidade de aplicar e comunicar a paixão. Em relação ao primeiro, não é realmente muito conveniente andar por aí nas ruas a espetar bandidos, apesar de alguns o merecerem. A salvação, neste território prático, foi o pequeno quintal alentejano, cujas escassas árvores e plantas bravas sofrem regularmente verdadeiras chacinas, especialmente nestes últimos anos, graças ao entusiasmo do p.selvagem. A comunicação é um problema ainda maior. Janelas de oportunidade como o "Kill Bill" têm sido exploradas em jantares e outros encontros, mas ao fim de dez minutos de elaboração teórica sobre a estética e história da lâmina, os comentários são invariavelmente os de que "não sabia que tinhas essa parte de cromo". Enfim, uma terrível solidão temática e estética. Como em outros campos decisivos, o que me salvou foi o "Financial Times". Antes do mais, através da tradução e da descoberta. Nas páginas do glorioso londrino tem sido possível aceder à milenar e distinta arte da "katana", que os japoneses continuam a venerar. Mas o papel de salmão tem conseguido dar-me ainda mais felicidade, através da descoberta de culturas de nicho superiores. Entre elas, as de algumas aldeias suecas, que continuam a criar à mão, como verdadeiros artesãos, machados e facas milenares. São objectos absolutamente extraordinários, tanto no cuidado estético, como na maximização da funcionalidade. Nestas aldeias é mesmo possível frequentar alguns cursos de iniciação. Um bom projecto para o Verão. Outra linha de descoberta, porventura mais importante, é a de que os apaixonados pelas lâminas não o escondem. Assim, através do FT, vou descobrindo que pessoas com a dose regular de lucidez como eu gostam de procurar e olhar para lâminas, e algumas delas, quando possível, compram recantos de floresta ou mato para colocar a uso os seus objectos. Assim, é possível entender que afinal a minha solidão com lâminas tem apenas a ver com a incorporação na cultura e na geografia erradas. O que, certamente, tem solução.

20110214

os velhinhos abandonados

A recente descoberta por parte dos media dos velhinhos abandonados é comovente. Obviamente, o buzz mediático - despertado pela descoberta da idosa esquecida durante dez anos - irá desaparecer no momento em que aos casos descobertos nos últimos dias, que os media apresentam como confrangedores, se juntem outras dezenas e centenas de casos semelhantes. Porque a verdade é que devem existir milhares, e só por ignorância ou hipocrisia é que podemos dizer que não sabíamos. O problema é ocidental e urbano, e tem especial relevo em países como o nosso, devido a motivos particulares como as migrações contínuas para os grandes centros suburbanos, o preço absurdo das casas, e o facto de estas terem áreas pequenas. A verdade é que o abandono dos idosos e as crianças é o preço que todos temos de pagar pelo mundo que escolhemos. Fale - se um bocadinho mais com qualquer psicóloga de um colégio particular ou público, e esta confessará que a taxa de crianças sem acompanhamento paternal efectivo é assustadora. O mesmo acontece, claro, com os idosos. Já ninguém tem tempo para eles, quando se multiplicam as necessidades pessoais e profissionais. Aliás, se quisermos levar a questão um pouco mais a sério, o que está a acontecer é a dissolução total da família. E, se tudo correr como o previsto, a geração que daqui a 25 anos chegará a avô, ou seja a minha, ainda sofrerá mais este problema. Na verdade, não podemos estar a educar os nossos filhos para operarem no mundo global, o que é o mais correcto que temos a fazer, e esperar que estes nos levem ao hospital às três da manhã de uma quarta - feira. Deste modo, é de uma tremenda hipocrisia da parte dos media insistirem numa história de fazer chorar as pedras da calçada. É apenas o preço a pagar, e o único modo de evitar esta cobrança das circunstâncias é tentar criar, pessoalmente, e muito antes, mecanismos para que quando esta se manifeste, não o faça de modo muito violento.

20110212

Retorno ao dicionário

A vontade é intuitiva, mas imperial. A vontade de criar um pequeno intervalo no tempo e no espaço, e voltar ao território pessoal. Nada melhor para tal do que vasculhar papéis abandonados, procurando para eles uma ordem a que não se submetem. E, depois, ler papéis esquecidos, bem acomodados pela música de Szymanowski, na versão conduzida por Boulez e tocada pela Filarmónica de Viena. E é então que, sem nenhuma razão racional, o dicionário se intromete. O prazer de ler um dicionário com uma ordem que não lhe é natural, da primeira entrada do A em diante. Ainda funciona muito bem, especialmente se estamos a falar da terceira edição do "Dictionary of Literary Terms & Literary Theory", do notável J.A. Cuddon. O autor leva - me  especialmente a dois lados. No primeiro, a confirmação de que continuo a saber pouco daquilo que penso que domino. Basta ler as entradas "novel" ou "character" para o confirmar. O segundo caminho é ainda mais interessante. São as descobertas. "Mycterism", "asteismus" ou "calypso" são apenas algumas das milhares de fabulosas lições contidas de Cuddon. Os retornos são importantes.