20111213

As outras histórias

Todos os dias trabalho com texto. Ficção, não-ficção, próprio, de outros, estruturando, criando, editando, por iniciativa própria ou por contrato. E, no entanto, parece-me sempre que nunca consigo criar o texto que está sempre comigo, que me perturba. Parece-me também que existem duas barreiras que contribuem para o referido efeito. A primeira é a de que não consigo encontrar as palavras que traduzam o que me acossa. A segunda, sendo eu um burocrata, é que não consigo desenhar o formato adequado. Um dos textos que me persegue desde sempre, e que se desdobra em múltiplos textos, tem a ver com as outras histórias. Acho que o projecto nasceu com as cidades invisíveis de calvino, lido há mais de duas décadas. Em essência, tem a ver com reportar e reproduzir em texto os imaginários riquissimos a que normalmente não temos acesso. Por exemplo, como será hoje viver em Detroit. Mas também como persistir na manufactura de ferramentas. Ou, ao lado, como será o mundo dos que já pertencem aos nós digitais. Por outras palavras, convocar todos os mundos que escapam um pouco ao interior das nossas fronteiras limitadas. Pensava nisto, mais uma vez, hoje de manhã. E eis que a minha amiga Cândida alerta para um maravilhoso texto de Henning Mankel, "In africa, the art of listening", publicado no New York Times. O texto fala da experiência de viver aquilo que eu idealizo. É uma espantosa coincidência. Tenho de lhe prestar atenção.

20111123

uma solidão com lâminas

Há interesses maiores naturalmente secretos. Por outras palavras, a natureza dos interesses choca com a cultura assente, e quando assim é, a via prudente é a amputação da partilha. Dos meus, o mais sufocado é a paixão por lâminas. Como todos os interesses pessoais maiores, não há propriamente uma identificação clara da origem. Mas entre infâncias no mato, histórias de guerreiros e noites de escuteiros, alguma marca terá sido fixada com profundidade. O percurso da paixão começou pelas más lâminas existentes em portugal, nesses tempos afastados dos anos 80 do século passado. Canivetes de cabo de plástico vermelho, e facas de mato de série. A sedução foi-se mantendo pelo tempo, o que levou a expedições periódicas frustrantes às antigas tabacarias de Lisboa e arredores. Mas, na verdade, o desejo só encontrou objecto à altura quando chegaram os primeiros Leatherman, comprados na primeira versão da Econauta, ou trazidos de paragens europeias, quando nos aviões era permitido transportá-los nos bolsos das calças. Um bom tempo. Os primeiros Leatherman fascinavam pela complexidade do engenho, e pela beleza estética do objecto. No meu caso, são estas as características que fixam e perduram a paixão. Antes do mais, a capacidade do artesão, o seu labor e genialidade. Depois, a beleza material da lâmina. Certamente que o conforto da segurança de ter uma arma, e aquela confusão de sentimentos sempre classificada como "rapazes serão sempre rapazes", terão também o seu peso de influência. Enfim,embora desconfie que estas são propostas teóricas algo limitadas, já que a minha avó aos 80 anos andava sempre com uma lãmina no bolso. A partir da idade adulta, o cenário não sofreu grandes modificações. A Leatherman foi evoluíndo de modo fantástico, e complexizando os seus modelos, graças ao design e fabrico com ferramentas informatizadas. Há até alguns momentos traumatizantes, como a confiscação, em Heathrow, do modelo Wave, na altura o topo da Leatherman, comprado em Darwin, em 1999, para comemorar a evacuação de Timor. No entanto, esta relação de intimidade com a Leatherman teve sempre um ponto fraco. As lâminas são perfeitas, atraentes, eficazes, mas têm aquela impressão do produto americano, aquela exactidão de série de linha de montagem da Ford que as torna demasiado mecânicas. Mas, realmente, os dois problemas, nestas últimas décadas, foram a incapacidade de aplicar e comunicar a paixão. Em relação ao primeiro, não é realmente muito conveniente andar por aí nas ruas a espetar bandidos, apesar de alguns o merecerem. A salvação, neste território prático, foi o pequeno quintal alentejano, cujas escassas árvores e plantas bravas sofrem regularmente verdadeiras chacinas, especialmente nestes últimos anos, graças ao entusiasmo do p.selvagem. A comunicação é um problema ainda maior. Janelas de oportunidade como o "Kill Bill" têm sido exploradas em jantares e outros encontros, mas ao fim de dez minutos de elaboração teórica sobre a estética e história da lâmina, os comentários são invariavelmente os de que "não sabia que tinhas essa parte de cromo". Enfim, uma terrível solidão temática e estética. Como em outros campos decisivos, o que me salvou foi o "Financial Times". Antes do mais, através da tradução e da descoberta. Nas páginas do glorioso londrino tem sido possível aceder à milenar e distinta arte da "katana", que os japoneses continuam a venerar. Mas o papel de salmão tem conseguido dar-me ainda mais felicidade, através da descoberta de culturas de nicho superiores. Entre elas, as de algumas aldeias suecas, que continuam a criar à mão, como verdadeiros artesãos, machados e facas milenares. São objectos absolutamente extraordinários, tanto no cuidado estético, como na maximização da funcionalidade. Nestas aldeias é mesmo possível frequentar alguns cursos de iniciação. Um bom projecto para o Verão. Outra linha de descoberta, porventura mais importante, é a de que os apaixonados pelas lâminas não o escondem. Assim, através do FT, vou descobrindo que pessoas com a dose regular de lucidez como eu gostam de procurar e olhar para lâminas, e algumas delas, quando possível, compram recantos de floresta ou mato para colocar a uso os seus objectos. Assim, é possível entender que afinal a minha solidão com lâminas tem apenas a ver com a incorporação na cultura e na geografia erradas. O que, certamente, tem solução.

20110214

os velhinhos abandonados

A recente descoberta por parte dos media dos velhinhos abandonados é comovente. Obviamente, o buzz mediático - despertado pela descoberta da idosa esquecida durante dez anos - irá desaparecer no momento em que aos casos descobertos nos últimos dias, que os media apresentam como confrangedores, se juntem outras dezenas e centenas de casos semelhantes. Porque a verdade é que devem existir milhares, e só por ignorância ou hipocrisia é que podemos dizer que não sabíamos. O problema é ocidental e urbano, e tem especial relevo em países como o nosso, devido a motivos particulares como as migrações contínuas para os grandes centros suburbanos, o preço absurdo das casas, e o facto de estas terem áreas pequenas. A verdade é que o abandono dos idosos e as crianças é o preço que todos temos de pagar pelo mundo que escolhemos. Fale - se um bocadinho mais com qualquer psicóloga de um colégio particular ou público, e esta confessará que a taxa de crianças sem acompanhamento paternal efectivo é assustadora. O mesmo acontece, claro, com os idosos. Já ninguém tem tempo para eles, quando se multiplicam as necessidades pessoais e profissionais. Aliás, se quisermos levar a questão um pouco mais a sério, o que está a acontecer é a dissolução total da família. E, se tudo correr como o previsto, a geração que daqui a 25 anos chegará a avô, ou seja a minha, ainda sofrerá mais este problema. Na verdade, não podemos estar a educar os nossos filhos para operarem no mundo global, o que é o mais correcto que temos a fazer, e esperar que estes nos levem ao hospital às três da manhã de uma quarta - feira. Deste modo, é de uma tremenda hipocrisia da parte dos media insistirem numa história de fazer chorar as pedras da calçada. É apenas o preço a pagar, e o único modo de evitar esta cobrança das circunstâncias é tentar criar, pessoalmente, e muito antes, mecanismos para que quando esta se manifeste, não o faça de modo muito violento.

20110212

Retorno ao dicionário

A vontade é intuitiva, mas imperial. A vontade de criar um pequeno intervalo no tempo e no espaço, e voltar ao território pessoal. Nada melhor para tal do que vasculhar papéis abandonados, procurando para eles uma ordem a que não se submetem. E, depois, ler papéis esquecidos, bem acomodados pela música de Szymanowski, na versão conduzida por Boulez e tocada pela Filarmónica de Viena. E é então que, sem nenhuma razão racional, o dicionário se intromete. O prazer de ler um dicionário com uma ordem que não lhe é natural, da primeira entrada do A em diante. Ainda funciona muito bem, especialmente se estamos a falar da terceira edição do "Dictionary of Literary Terms & Literary Theory", do notável J.A. Cuddon. O autor leva - me  especialmente a dois lados. No primeiro, a confirmação de que continuo a saber pouco daquilo que penso que domino. Basta ler as entradas "novel" ou "character" para o confirmar. O segundo caminho é ainda mais interessante. São as descobertas. "Mycterism", "asteismus" ou "calypso" são apenas algumas das milhares de fabulosas lições contidas de Cuddon. Os retornos são importantes.

20110110

A SITUAÇÃO INTOLERÁVEL

 A conjuntura política e económica nacional é intolerável. Duas forças decisivas adoptaram estratégias insustentáveis e estão dispostas a ir até ao fim na defesa dos seus interesses. A primeira força é a dos funcionários públicos, e a sua estratégia é a de recusar participar na austeridade. A segunda força é a do Governo, e a sua estratégia é a de não querer reformar o Estado. Deste nó górdio, apenas pode resultar o caos.
A primeira força revela ter adoptado de modo delirante a fuga para a frente. As revelações, públicas o que ainda é mais fantástico, de corpos públicos de elite, como os juízes e os polícias, de que recusam acatar as medidas de austeridade, são inaceitáveis. A estes corpos de elite, sucederam -se os sindicatos, os directores de escolas e todos os outros, que através do litígio judicial querem impedir a aplicação da austeridade. Quanto a mim, é uma posição extraordinária. Na verdade, não há fuga possível. As contas públicas, o Estado, estão falidos, o que é reforçado por agentes económicos privados débeis, incapazes de inverter a nossa tendência económica depressiva. A única posição possível é a de aceitar o sofrimento e o sacrifício. Para a minha geração, a que tem agora 40 anos, não há outro caminho. Como sabemos desde 1990, esperam -nos pelo menos duas décadas de vida numa economia pobre, com tudo o que isso implica. Mas aceitar a realidade não deve ser uma validação para a adopção de estratégias absurdas. Cabe - nos aceitar o sacrifício com lucidez e dignidade, e tentar fazer o melhor para que os nosso filhos tenham acesso a um país melhor. A segunda força decisiva, o Governo, que tem o poder de decisão administrativo no Estado, mantém uma estratégia de enterrar a cabeça na areia, por calculismo e cobardia política. Na verdade, não é possível pedir sacrifícios, como o aumento dos impostos e a redução do salários, e manter os privilégios de uma gigantesca minoria e de um sistema, o estatal, obeso e ineficaz. O encerramento de estruturas desse sistema e o despedimento de funcionários são condições obrigatórias. Em simultâneo, é imperial a extinção imediata de privilégios supérfluos e irracionais perante a conjuntura em que vivemos. Refiro - me, só para dar alguns exemplos impressionistas, a despesas de representação, prémios e bónus, despesas secundárias, viagens e uso de viaturas oficiais excepto em deslocação oficial fora da área de trabalho do funcionário. A segunda força decisiva não fará nada disto porque, tal como todos os seus congéneres, o partido a que pertence depende do Estado para assegurar a sobrevivência e o trabalho dos quadros desse partido. E é este beco constitucional que mina por dentro o nosso país. Parece - me, pessoalmente, que a única saída é uma associação temporária da sociedade civil, unida num movimento que, respeitando a ordem constitucional, obrigue materialmente os partidos a adoptarem as estratégias que querem evitar a todo o custo. O voto em branco nas eleições legislativas e a recusa de pagar qualquer serviço estatal parecem - me ser medidas prioritárias. Os cidadãos têm de dizer claramente aos seus representantes: "Acabou, rapazes".

20101031

notas de um perseguidor de livros, revistas e jornais

Os perseguidores dos objectos citados no título deste "post" nunca tiveram uma vida simples no nosso país. Lembro - me de que na época em que Portugal estava ainda na pré - história do cosmopolitismo globalizado, à volta de 1990, quando não existia ainda internet e o avião era um transporte de elite, decidi fazer uma assinatura da revista "The New Yorker". Intensas negociações foram necessárias, por telefone também ainda, e a coisa acabou com o preço de 20 "bucks", mas mais 212 de portes de correio, quando os "greens" eram uma moeda forte. Aliás, o mais grave é que a revista, semanal, era - me amiúde roubada pelo carteiro da estação do Estoril, o que me fez perder tardes e tardes para resolver o crime. Enfim, contos da pré - história, novamente. Hoje, as coisas são totalmente diferentes, mas ainda se conseguem manter algumas das dificuldades, isto é da beleza do mistério de passado recente. Uma é a de vasculhar jornais e revistas em papel, em busca das coisas extraordinárias que se publicam todos os dias. O meu método é o de acumular várias edições do "Financial Times Weekend", lê - los todos de uma vez, e recortar os pedacinhos de papel referentes a livros que podem interessar, para depois os pesquisar através de fontes online. Foi o que andei a fazer esta tarde, e devo dizer que esta colheita de fim de Outubro é entusiasmante. Temos antes de tudo o mais "Kamchatka", do argentino Marcelo Figueras, que volta ao tema da guerra suja argentina, o período da ditadura militar, visto por os olhos de uma criança, com um enorme fascínio por Kamchatka, uma cidade russa presente no jogo de mesa "Risco". Este texto interessa - me particularmente por lidar com uma tentativa de transportar para a ficção objectos e manifestações, neste caso o jogo Risco, que fazem parte da nossa vida. Tenho tentado fazer o mesmo com obras de arte, videojogos e músicas que me tocam, sem no entanto, acho, grande sucesso. Segue -se "Every Secret Thing", de Gillian Slovo, a ficcionista sul - africana, filha de Joe Slovo um dos primeiros brancos sul - africanos anti apartheid. O livro é a história da familia de Gillian, ou seja também uma história do apartheid. Mais uma vez, o texto interessa - me por razões particulares. Acredito que através das memórias de sul - africanos, nigerianos e outros conseguimos ir um pouco mais longe no conhecimento da África portuguesa no século xx, e colmatar assim a falta de memórias e biografias que temos.  "Air", de  G Willow Wilson, é outro universo. É aquilo que agora se chama uma "graphic novel", que lida com o sonho e as realidades alternativas, e que nós no antigamente dizíamos ser BD. Esta distinção é importante, já que G Willow Wilson vem da escola americana, que nos últimos 10 anos se colocou a léguas, em potência do argumento e qualidade do traço, da escola franco - belga, que é a minha. Enfim, é a vida. "The SS: a New History", do historiador Adrian Weale, chamou - me à atenção por se dedicar ao conhecimento de uma das forças mais profissionais de investigação e informação da história recente, e que hoje parece ter sido soterrada na história, a não ser nos círculos skinheads. O que mais me interessa são os métodos de obtenção de informação das SS, especialmente a tortura, já que esse é um dos objectos da minha tese de doutoramento. "Stalling for Time" é puro "vintage" editorial norte - americano, neste caso as memórias de um negociador de reféns do FBI. É extraordinário como os americanos conseguem pegar em vidas interessantes, e usando técnicas perfeitas de recolha de informação e tratamento de texto, gerar obras que nos prendem da primeira à última página. Tenho tentado partilhar estas técnicas no mercado português, gerando o entusiasmo em alguns aprendizes, mas sem grande sucesso junto das editoras. Por último, "The New Machiavelli: How to Wield Power in the modern world", escrito por Jonathan Powell, que foi o chefe de gabinete de Blair. O conhecimento de como é efectivamente exercido o poder sempre foi prioritário para mim, porque é aquele a determinar o mundo em que vivemos. A obra de Powell vem muito bem referenciada. E fica assim concluída a recolha de uma tarde de prazer e trabalho. Como é bom folhear página atrás de página de jornal ou revista e fazer aquela descoberta iluminante que saiu mais um livro que nos possibilita grandes hipóteses de decifrar mais um bocadinho daquilo que nos intriga.

20101003

alguns frames de Tarkovsky

Não há um momento de "Stalker" que não pertença a um cenário de intensa beleza, embora toda a realidade visual do filme reproduza a fealdade de um mundo pós - Apocalipse. Tarkovsky manipula a luz baça, a sujidade entranhada e densa e a textura destruída da cidade urbana contaminada de um modo que torna cada imagem uma fusão da fase desesperada de Turner, da intensidade de Rothko e do realismo de Hooper. Na Zona, o pedaço proibido do território onde se esconde o segredo, Tarkovsky mantém o encantamento: a natureza surge maravilhosa ou enigmática, as paisagens e materiais industriais envoltas numa escuridão de fealdade que é tão fascinante como bela. Cada frame do filme terá sido, sem dúvida, inspiração maior para tantos outros filmes e objectos de arte que, de repente, começam a surgir no nosso pensamento. Coloca - se então o problema da fixação, da circulação e do acesso. "Stalker" é um filme fixado numa película que um dia irá desaparecer, e que dificilmente terá a oportunidade de ser exposta numa parede de um museu onde se guardam as memórias visuais  maiores. Surge - nos a tristeza de Tarkosvsky não ter agido. Não ter isolado umas dezenas de frames do seu filme, e fixado a sua matéria em tela ou papel. Para que a beleza fantástica daqueles lugares e rostos pudesse existir para além do rolo de um filme.