20140616

O sinal secreto do Uber


Será um grave erro considerar o que actualmente se passa entre a aplicação Uber e os taxistas europeus como um simples conflito entre operadores de transportes.

Na verdade, é um dos primeiros sinais visíveis da profunda mudança estrutural dos mercados de trabalho e dos modelos de negócio, ditada pela ruptura encetada pela tecnologia e pelo algoritmo.

Recordando o contexto, o Uber é uma aplicação para telefones inteligentes criada por uma empresa de São Francisco, que, usando o GPS do aparelho, permite ao cliente ver quais os táxis mais próximos num determinado momento em determinada localização, escolher um deles, pagar a corrida também através do telefone, e avaliar a qualidade do condutor e do serviço.

O Uber funciona num grande número de cidades americanas, e também em algumas europeias, entre as quais Londres e Paris, onde, esta semana, os taxistas encetaram greves, em protesto contra a aplicação e o seu uso por parte dos clientes.

Claro que o conflito Uber- Operadores de táxis é também um conflito entre operadores de um mercado. A questão chave aqui é que os agentes da oferta perdem o controlo do mercado, e, a este propósito, é de muito saudar a intenção de a Uber vir para Lisboa, que bem precisa de uma aceleração veloz e radical do serviço de táxis, um dos mais antiquados e deficientes instalados entre nós.

Assim, o que está em causa, neste ponto, é que os agentes da oferta terão de se preocupar em oferecer o melhor serviço, a começar pelo melhor condutor, porque o cliente deixa de querer apenas o serviço. Na verdade, a partir do momento em que o agente da procura pode previamente avaliar e escolher o serviço, o mercado muda para sempre.

Mas é a face escondida desta mudança que mais nos deve fazer reflectir no fenómeno Uber. De facto, é totalmente límpido neste exemplo, o que é raro, que o factor decisivo é a tecnologia, e o algoritmo que coloca em acção.

A capacidade da aplicação situar o cliente, localizar o melhor carro, fornecer dados sobre a sua qualidade, partilhar o preço, e processar a transacção, mostra como a inteligência artificial pode executar melhor que os humanos, e mudar de forma estrutural um contexto laboral e de mercado.

É precisamente para esta vertiginosa mudança silenciosa, e tenho sempre resistido a usar neste texto a palavra revolução porque penso que não será apenas uma ruptura, mas uma mudança para sempre, que alguns autores têm tentado chamar a atenção.

 Um dos mais consistentes é o economista Tyler Cowen que no seu livro “Average is Over: Powering America Beyondthe Age of the Great Stagnation”, tenta partilhar os dados que tem e a previsão em que aposta para o futuro dos mercados de trabalho ocidentais a muito curto prazo.

A tese central de Cowen, que aqui simplifico, é que o aumento brutal da capacidade da inteligência artificial fará com que as máquinas entrem em funções que até aqui se acreditava serem propriedade humana exclusiva, e sejam capazes muito rapidamente de substituir ou de fornecer alternativas melhores ao desempenho profissional humano.

 No livro citado, Cowen dá um exemplo muito semelhante ao do Uber, relacionado com os médicos, quando explica que no momento em que existir uma aplicação que permita a avaliação dos médicos por parte dos pacientes, a profissão muda radicalmente.

Ainda segundo Cowen, existem dois efeitos imediatos provocados pela ascensão das máquinas. O primeiro é que em muitas tarefas profissionais, os humanos serão substituídos. O segundo é que os profissionais com êxito serão aqueles capazes de trabalhar em parceria com as máquinas, trazendo o pequeno valor acrescentado tão importante que a máquina não consegue gerar.

Ou seja, os condutores de táxis que sejam capazes de processar os padrões fornecidos pelo algoritmo do Uber e se sintam eficientes, capazes de estar no sítio certo, e competentes para serem escolhidos pelo advogado Ribeiro, que semanalmente viaja de São Paulo para Lisboa, vai de metropolitano do Aeroporto para a Avenida da Liberdade, e depois de táxi para Évora.   

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